75 anos da USP
A Universidade de São Paulo está fazendo aniversário. No dia 25/01, a USP comemorou seus 75 anos de fundação, com sessões solenes no Memorial da América Latina, exposições de fotos e um belo concerto no Teatro Alfa. De fato, a faculdade possui muitos motivos para ter orgulho de si própria: ela é, atualmente, líder indiscutível em quantidade e qualidade da produção acadêmica nacional e é a única universidade da América Latina a figurar entre o rol das 150 melhores faculdade do mundo.
Mas a USP ainda precisa superar alguns desafios, não só para ampliar sua excelência acadêmica, mas também para melhorar sua inserção na sociedade nacional. Em minha opinião, as grades curriculares dos cursos de graduação ainda não conseguem aproveitar a multidisciplinaridade que a própria universidade oferece. Deveríamos deixar mais espaços para os estudantes cursarem disciplinas fora de seus departamentos, estimulando um contanto interunidadades que seria muito interessante aos alunos.
Também a internacionalização da USP carece de mais atenção. Como já ressaltado tanto pela atual reitora, Suely Villela, quanto pela a pesquisadora de políticas de ensino superior, Elizabeth Balbachvesky, a USP precisa facilitar o intercâmbio entre pesquisadores nacionais e estrangeiros, a fim de se obter contato com o que melhor se produz em conhecimento pelo mundo afora. A importância da tecnologia no atual modelo de produção econômico faz com que essa carência de internacionalização possa vir a ser um fator limitante no desenvolvimento nacional. Espero que, em breve, possamos reverter esse quadro.
Ligado a esse problema, temos a discussão a respeito da ampliação das vagas da graduação perante o aumento de verbas para a pós-graduação. Para alguns professores, há um tradeoff entre graduação e pós, uma vez que os recursos econômicos da faculdade são escassos. Alguns, como Simon Schwartzman e o ex-reitor Roberto Lobo, afirmam que seria mais vantajoso para a faculdade investir naquilo em que ela possui vantagem comparativa, como as pesquisas. “A massificação da graduação pode ser feita por instituições como as Fatecs“, disse o professor Lobo, em entrevista à FSP. Em outra posição, Renato Janine Ribeiro defende que o crescimento dos cursos de gradução é importante, uma vez que isso confere “legitimidade política” para a USP. De minha parte, acredito que a primeira posição seja a mais adequada, uma vez que os grandes avanços científicos e a melhoria dos cursos de gradução estão ligados, em primeiro lugar, a um bom ambiente de pesquisa. Caso a USP canalizasse mais seus recursos para a pesquisa de pós-graduação, creio que haveria um ‘transbordamento’ científico importante para todas as outras instituições de ensino superior. E só a USP, atualmente, seria capaz de assumir esse papel.
Por fim, acredito que a universidade necessite rever suas posições relativas à interação com a sociedade. Dado que a faculdade é pública, esse deve ser um ponto crucial em uma reavalição crítica da instituição. A interação entre a universidade e as empresas privadas ainda é tímida, quando não totalmente rechaçada por alguns setores estudantis. Acredito que a interação com a iniciativa privada possa ser de grande valia para a produção endógena de novas tecnologias, algo em que o Brasil está ainda dando seus primeiros passos, e que é muito importante para a geração de riqueza e empregos no País. Com demais setores sociais, talvez uma articulação entre a academia e as comunidades de base possa vir a ser muito proveitoso. Arquitetos, geógrafos, sociólogos, médicos, engenheiros e advogados são sempre necessários nas áreas mais pobres da cidade, e a USP pode fornecê-los em número considerável. Talvez um programa de parcerias com ONGs ou secretarias de governo, visando implantar obras sociais inovadoras, possa ser uma boa alternativa. Desse modo, teríamos a USP correspondendo tanto em sua missão científica quanto em sua missão social, colaborando para uma cidade mais esclarecida e mais justa. Creio que os fundadores da universidade tinham esse projeto em mente, e ficariam muito orgulhosos se pudéssemos cumpri-lo.
Parabéns à USP, e que seus próximos 75 anos sejam ainda melhores do que estes que já se foram.