Dez anos de Hugo Chávez

Por Danilo, 12/11/2009 20:24

Há dez anos a Venezuela tem Hugo Chávez como seu presidente. Já em 1999, podíamos ver as largas ambições do ex-coronel: poucos meses após sua eleição, Chávez convocou uma Assembléia Constituinte que ampliou o mandato do presidente de cinco para seis anos, permitiu a reeleição, fundiu as duas casa legislativas em uma e, como a jóia da coroa, curiosamente renomeou o país para República Bolivariana de Venezuela. Hoje, uma década depois, podemos traçar algumas linhas sobre o que acontece naquele país.

No plano material, Chávez tem se apoiado seu “socialismo do século XXI” em dois pilares: as Missões Bolivarianas, programas organizados pelo Estado para reduzir a pobreza e o analfabetismo, e que também atuam como forte núcleo de propaganda chavista (a “Missão Florentino” foi criada apenas para pedir votos à proposta do governo em um referendo); e as ‘iniciativas bolivarianas’ na política externa, com fortes críticas ao ‘capitalismo selvagem’, ao ‘neoliberalismo’ e ao ‘imperialismo’. A diplomacia de Chávez é pautada pela aproximação com países antidemocráticos, como Cuba, Irã, Líbia e o Iraque de Saddam Hussein, o que tem-lhe rendido uma série de críticas dos setores liberais de vários países. Com sua histérica retórica contra os EUA – para os quais, paradoxalmente, a Venezuela nunca deixou de fornecer petróleo, chegando mesmo a importá-lo a altos preços da Rússia para cumprir um contrato - Chávez trouxe seu país às primeiras páginas dos cadernos internacionais. Somadas ao alto preço do petróleo no mercado internacional, dizia-se que a Venezuela poderia até ofuscar o Brasil na América do Sul, tornando-se o ator mais importante na região.

O que vemos, atualmente, é um quadro muito diverso. A Venezuela tem visto crescer a corrupção em todos os níveis governamentais – a ONG Transparency International classifica o país como o segundo mais corrupto da América Latina, apenas atrás do Haiti, empatado com Serra Leoa, Guiné Bissau e Congo -, e suas política sociais estão com dificuldades graças à queda do preço do petróleo. Há também uma crítica corrente, que é a de que Chávez não soube utilizar adequadamente os recursos da exportação da matéria-prima: as taxas de desnutrição, de falta de água corrente e de desemprego são decepcionantes, de acordo com um relatório escrito por Michael Shifter na revista Foreign Affairs. Mesmo a redução da pobreza, tão vangloriada pelo governo Chávez, tem razões duvidosas: após uma constatação, em 2004, do aumento de 10% do número de pobres durante seu governo (para 53%, em uma medição feita pelo próprio Instituto Nacional de Estatísticas da Venezuela), Chávez pediu uma “recontagem” e sugeriu “um novo método” de análise. Deste modo, a pobreza da Venezuela então passou a 40% da população total.

Politicamente, a Venezuela não é ditadura completa, mas algumas liberdades estão sendo fortemente cerceadas. A imprensa é hoje monitorada pelo governo, com ameaças constantes de cancelamento de concessões; a Human Rights Watch comenta que há certa perseguição ideológica no país (Chávez expulsou o representante da HRW do território, sendo o único país da América Latina a tomar tal atitude); a Anistia Internacional afirma que o Judiciário na Venezuela é “politizado e parcial”, ferindo as garantias individuais; e, por fim, a Heritage Foundation colocou a Venezuela em um triste 152º lugar (de 157 países consultados), considerando a liberdade econômica dos indivíduos. A Revolução mostra, a cada dia, seus defeitos.

Na próxima semana, Chávez continuará com sua democracia plebiscitária, levando a referendo uma proposta para poder reeleger-se para um terceiro mandato em 2012. Em 2007, os venezuelanos rejeitaram esta idéia. Talvez a melhor maneira de trazer um futuro melhor para a Venezuela seja rejeitar de novo.

Comentários estão bloqueados

Themocracy WordPress Themes