Son House – “John The Revelator”

Por Danilo, 12/11/2009 19:55

Ontem, como sempre, o Metrô de São Paulo estava cheio. Apesar disso, consegui ainda sentar-me, e pude folhear um bom livro de Microeconomia que tinha nas mãos (o manual de Pindyck & Rubinfeld, Microeconomics). Em poucos instantes, no entanto, notei a entrada de um homem já de meia-idade, que caminhava com certa dificuldade. Pedi a ele que ocupasse o meu lugar, o que, de pronto, ele atendeu. Agradecido, o senhor gentilmente se ofereceu para segurar o meu volumoso manual; foi aí que notei que ele também carregava um livro. E não era um livro qualquer, era a Bíblia.

Logo percebi tratar-se aquele senhor de um pastor, provavelmente indo a um sermão (ou prédica, caso ele seja luterano). A Bíblia que ele portava era a Authorized King James Version, uma das mais importantes traduções do livro até hoje. Perguntei-lhe então se o texto de King James o agradava, e começamos assim uma conversa sobre o papel da “King James” na difusão do texto bíblico. Afinal, como em mim a fé em Deus há muito esmoreceu, resta-me apenas discutir os aspectos históricos e etimológicos da Bíblia: se àquele pastor o livro ainda era a prova viva da Palavra do Senhor, para mim, hoje é pouco mais que uma curiosidade científica ou um código de conduta. Mas, curiosamente, nada disso tolheu nosso proveitoso diálogo: falamos bastante, e foi-me de especial interesse suas idéias sobre a inclusão dos Apócrifos na Bíblia de King James, talvez surgida pelo interesse, à época, dos protestantes ingleses na leitura desses livros, ainda hoje contestados por grande parte da liturgia.

Após algumas estações, despedi-me do pastor e segui meu caminho. Estava ouvindo a música cujo vídeo está abaixo. Coincidentemente, a canção é um spiritual antigo, cantado por Son House (um dos pais do Blues), que queria ser pastor batista quando jovem. A música chama-se “John The Revelator“, e a autoria é desconhecida. Mas caiu como uma luva naquele momento.

Confesso que meu respeito pelos protestantes é enorme. Admiro o modo pelo qual levam uma vida ordenada e modesta, quase toda dedicada exclusivamente ao trabalho e à caridade ad majorem Dei gloriam, para maior glória de Deus. Hoje, ateu, custa-me a crer em um Ser Supremo, criador ou mantenedor do cosmos. Depois que uma pessoa se torna apóstata, dificilmente Ele ressurge em sua consciência. Não me arrependo do ateísmo: atualmente, parece-me mais sólida a idéia de um universo natural, sem Criador e com Big Bang, e a de uma evolução das espécies, sem Adão e com macacos. A religião, para mim, é apenas um conforto psicológico, não apenas perante a realidade de não sabermos tudo, mas também perante a possibilidade da existência ser desprovida de significado. E se Deus existisse, por qual motivo daria sua palavra a seres como nós, e não a outros, em todo o universo? Ainda assim, se ele surgisse para nós, quem garante que alguém ia compreendê-lo? E o que aconteceram com os antigos deuses fenícios, babilônios, persas, egípcios, gregos, nórdicos? Se eles morreram, quem garante que o nosso também não morrerá? São perguntas para as quais, até hoje, não encontrei respostas satisfatórias.

Contudo, ao ouvir o Son House e muitos outros protestantes que conheci, que levaram vidas desastrosas e que a religião deu-lhes força para reconstruírem-se dignamente, não consigo discordar da frase de Julian Barnes: “I don’t believe in God, but I miss Him“. Nem sempre é fácil olhar para um céu vazio.

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