Category: Ciências Humanas

Instituto John Galt – Objetivismo.com.br

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Por Danilo, 12/11/2009 20:39

O Objetivismo é uma filosofia desenvolvida pela escritora russo-americana Ayn Rand, baseada fundamentalmente em quatro princípios: a existência existe, mesmo sem a presença do homem; a razão é o único meio de conhecimento do mundo pelo homem; o homem é fim em si mesmo, e não deve ser utilizado como instrumento por seu semelhante; a liberdade é um valor supremo, e o sistema político deve ter como meta a consecução desse ideal.

Em poucas palavras, o Objetivismo é uma filosofia racional e individualista, cuja materialização se dá por meio da ampliação das liberdades dos cidadãos, do capitalismo laissez-faire e da não-intervenção do Estado em assuntos privados.

Com tais idéias em mente, um grande amigo meu desenvolveu o Instituto John Galt, visando debater aspectos do Objetivismo com todos os interessados. O link está abaixo, e sua visita é muito bem-vinda.

http://www.objetivismo.com.br/

Zhao Ziyang: um mandarim liberal

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Por Danilo, 12/11/2009 20:38

Paz Celestial

Não há pessoa que não tenha visto essa famosa fotografia. O anônimo estudante chinês que, desarmado, tentou bloquear o avanço dos tanques tornou-se um dos maiores ícones da resistência contra a repressão estatal. Naquele conturbado ano de 1989 – que propiciou a queda do Muro de Berlim, a atuação do sindicato “Solidariedade” na Polônia, a “Revolução de Veludo” na Tchecoslováquia e mesmo as primeiras eleições diretas no Brasil desde 1960 – o “Massacre da Paz Celestial” teve enorme repercussão na opinião pública da época e, de modo contundente, mostrava que havia “algo de podre no reino dos mandarins”.

Embora não se possa ver pela fotografia, o estudante não estava sozinho. Tinha a seu lado não só um vasto número de intelectuais e colegas, mas também oficiais de alta patente no governo chinês. Hoje poucos lembram que a causa imediata para o acirramento da movimentação estudantil foi a morte de Hu Yaobang, ex-Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês e reformador convicto. Mas naquele 4 de junho, a grande figura foi, sem sombra de dúvida, Zhao Ziyang. Zhao foi um dos grandes propositores da modernização chinesa por meio das reformas econômicas, todas em favor do livre-mercado e da privatização, do combate à corrupção e da redução do poder da burocracia partidária. Também defendeu uma importante divisão entre o Estado e o Partido que até hoje não ocorreu, e continua a causar danos para a sociedade civil chinesa.

No fatídico dia do “Massacre”, Zhao fez um discurso em favor dos estudantes, afirmando a necessidade de diálogo e reavaliação das posturas do PCC. As frases são de uma honestidade nunca antes vista no governo chinês: “Estudantes, nós chegamos tarde. Desculpem-nos. Vocês falam sobre nós, nos criticam, e tudo isso é necessário. Não venho aqui pedir a vocês que nos perdoem. Tudo o que eu tenho a dizer é que os estudantes estão ficando fracos, nesse sétimo dia de greve de fome. [...] Vocês são jovens, ainda têm muito tempo pela frente, e devem estar saudáveis para quando a China alcançar suas quatro modernizações‘. Vocês não são como nós, que somos velhos. [...] Eu só tenho um pedido: se vocês pararem com a greve de fome, o governo não vai fechar a porta do diálogo, nunca!“. Horas depois dessas palavras, que foram transmitidas pela rede pública de televisão, Zhao foi deposto de seu cargo e condenado à prisão domiciliar, de onde só viria a sair morto, quinze anos depois. Não é necessário dizer que tais punições – assim como o avanço das tropas contra os estudantes – foram ordenados pelos linha-dura do Partido Comunista que, de uma forma ou outra, estão no poder até hoje.

Zhao Ziyang

Mas Zhao conseguiu uma façanha, apesar de ter sido banido dos meios de comunicação chineses. Mesmo sob intensa vigilância, gravou horas de depoimentos em segredo, e essas fitas foram levadas ao exterior. E no próximo dia 4 de Junho, 20 anos após o “Massacre”, será lançada sua autobiografia: Prisoner of the State: The Secret Journal of Premier Zhao Ziyang. Nela, é possível imaginar o que teria acontecido se Zhao tivesse saído vitorioso do embate partidário: uma China mais pluralista, mesmo com o PCC ainda no poder, com menos favoritismo e corrupção. Jianli Yang, um dos estudantes presentes nas ações de 1989, disse à Foreign Policy: “Zhao’s reforms, one might imagine, would have proceeded at a purposeful but amenable pace, beginning with an opening of partial freedoms of assembly and demonstration. [...] Public participation would have followed, with public debate emerging on difficult questions from ethnic relations, to foreign affairs, to government corruption, to HIV/AIDS and the environment. In other words, China would have embarked on a peaceful transition to democracy. A democratic China — one that followed Zhao’s model — would have prospered economically, too.

Dessa forma, vale a pena a leitura da autobiografia de Zhao. É, como diz o artigo da Foreign Policy, “uma história alternativa da China”. Embora é certo que sua leitura será proibida no país, talvez cópias piratas e pdfs estejam disponíveis. De acordo com a Reuters, em Hong-Kong, onde o livro já foi lançado, a primeira edição esgotou-se em questão de horas. Talvez o interesse exista porque a mensagem final de Zhao era simples e clara: “Nós devemos estabelecer que a meta final da reforma política é a realização desse sistema político avançado [a democracia]. Se nós não nos movermos em direção a esta meta, será impossível resolver as condições anormais da economia de mercado chinesa“. Essas palavras, no entanto, não são adequadas apenas para a conjuntura da China, mas são úteis e inspiradoras para todos os países, sobretudo aqueles que enfrentam profundas desigualdades em um processo acelerado de crescimento. Você conhece algum outro país com tais características?

Para ler um excerto do livro, em inglês, clique aqui: New York Times – Excerpts From Zhao Ziyang’s ‘Prisoner of the State’

Hans Magnus Enzensberger em São Paulo

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Por Danilo, 12/11/2009 20:36

Expoente da chamada “geração crítica”, engajada contra o autoritarismo na Alemanha desde a 2ª Guerra até os acontecimentos pós-68, o escritor, poeta e intelectual alemão Hans Magnus Enzensberger vem a São Paulo para três encontros abertos, a convite do Goethe-Institut São Paulo, Instituto Moreira Salles e Companhia das Letras. Neles, o intelectual dialogará com pensadores brasileiros, lançará seu mais recente livro Hammerstein ou A Obstinação e participará de noite de poesias. É a segunda vez que Enzensberger vem ao país, sendo sua obra conhecida no Brasil, tanto pela academia quanto pelo público. Entre suas obras traduzidas para o português estão A outra Europa (Companhia das Letras, 2006), O diabo dos números (Companhia das Letras, 2000) e Elementos para uma teoria dos meios de comunicação (Conrad, 2003).

Nascido em 1929, Enzensberger pertence a uma esquerda crítica, inovadora e livre. Desde sua estréia literária, foi visto como “agitador“ e “terror da classe média“. Seus ensaios e obras literárias, lapidares e contundentes, expressam suas reflexões sobre a política, a crítica social e a tradição literária. Foi membro do Grupo 47, importante marco da renovação literária alemã, e professor convidado de poesia na Universidade de Frankfurt. De 1965 a 1975, editou a Revista Kursbuch, que exerceu grande influência no movimento estudantil e em 1985 fundou a coleção Die Andere Bibliothek, que traduziu e publicou na Alemanha importantes escritores de todo o mundo, entre eles, Machado de Assis.

Recebeu, entre outros, os prêmios Georg Büchner (1963), Heinrich-Böll (1985), Heinrich-Heine (1998) e Premio d’Annunzio (2006) em reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Sua versatilidade e produtividade lhe asseguraram um lugar de destaque na literatura do pós-guerra e no debate cultural das últimas décadas, sendo reconhecido como uma das grandes figuras da cena literária mundial.

Programa

12 de junho, sexta
19h30
Goethe-Institut São Paulo

Encontro O Alfabeto da crise: cultura e política em questão
Com Hans Magnus Enzensberger e Fernando Gabeira

Enzensberger dialoga com o jornalista, escritor e deputado federal Fernando Gabeira a respeito da crise política e cultural. Enzensberger publicou recentemente um pequeno “alfabeto pessoal”, em que discorre com argúcia e bom humor sobre os principais termos e personagens do noticiário econômico, em busca do sentido corrente de expressões como “economia real”, “cassino” e “gerenciamento de riscos”, entre outros.

15 de junho, segunda
19h30
Goethe-Institut São Paulo

Lançamento do livro Hammerstein ou A Obstinação de Hans Magnus Enzensberger (Cia das Letras)
Debate com o autor, Jorge de Almeida e Márcio Seligmann-Silva

Enzensberger participa do lançamento de seu mais recente livro Hammerstein Ou A Obstinação, pela editora Companhia das Letras, com tradução de Samuel Titan Jr. O autor buscou fontes no mundo inteiro para retratar o destino de Kurt von Hammerstein, chefe do Exército alemão e oponente ao nazismo, de sua mulher e de seus sete filhos. Mesclando poesia e verdade, fatos e ficção em um único livro, Enzensberger retrata um dos mais tempestuosos episódios da história alemã, marcado pela traição e pela resistência. O lançamento é seguido de debate com Jorge de Almeida (USP) e Márcio Seligmann-Silva (Unicamp).

16 de junho, terça
18h
Anfiteatro de História (FFLCH/USP)
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Cidade Universitária

Uma noite de poesia com Hans Magnus Enzensberger e Antonio Cicero
Comentários de Viviana Bosi

Uma seleção de poesias do livro Rebus (Suhrkamp Insel, 2009) de Hans Magnus Enzensberger, será lida pelo autor em alemão e em português pelo poeta e filósfo Antonio Cicero, com comentários de Viviana Bosi (USP).

Sobre o estado moderno no Ocidente

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Por Danilo, 12/11/2009 20:00

Hoje resolvi procurar alguns artigos científicos no portal Scielo. Com um excelente número de publicações nacionais, o portal é sempre um bom lugar para ler textos inteligentes. Chamou-me a atenção um artigo da Lua Nova, revista de cultura e política, que trata sobre o estado moderno, em um ponto de vista histórico bem abrangente. O autor é Modesto Florenzano, professor do Departamento de História da FFLCH-USP.

Segue o link para o artigo, cuja leitura é gratuita: Modesto Florenzano – Sobre as origens e o desenvolvimento do estado moderno no ocidente.

Declaração Universal dos Direitos Humanos

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Por Danilo, 12/11/2009 19:52

A Declaração Universal dos Direitos Humanos faz 60 anos. Que ela viva por mais 60, 600 ou 6000 anos.

O vídeo, dedico à minha querida Giovana. :)

Águas: uma análise de ‘Estudos Avançados’

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Por Danilo, 12/11/2009 19:48

Um dos órgãos mais conceituados da Universidade de São Paulo é seu Instituto de Estudos Avançados (IEA). Fundado em 1986, o IEA é um centro de estudos multidisciplinar, que visa à produção e difusão social do conhecimento no Brasil. Não é preciso nem dizer que ali estão alguns dos maiores nomes da USP.

O Instituto possui também uma excelente publicação, a “Revista do IEA“, que está disponível para leitura gratuitamente no portal Scielo. A última edição traz um “Dossiê Água”, que achei muito intessante. Vale uma boa leitura!

Aqui vai o link: Revista do IEA – Dossiê Água.

Até mais!

Os 100 melhores livros de 2008, pelo NYT

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Por Danilo, 12/11/2009 19:44

O tradicional caderno literário do The New York Times, o New York Times Book Review, publicou uma lista com 100 livros notáveis de 2008. A lista não é muito abrangente, haja vista que só engloba os volumes resenhados pelo suplemento, mas é bem interessante.

Segue o link: 100 Notable Books of 2008.

Bibliografia: “Development as Freedom”

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Por Danilo, 12/11/2009 19:39

Amartya Sen é avis rara no campo da economia. Se a tendência dos atuais pesquisadores da área é focar-se em assuntos cada vez mais específicos, cujos teoremas possuem pouca utilidade fora de sua estreita margem de aplicação, o indiano tem como objetivo o estudo das grandes questões sociais, como a pobreza, a fome e gênero. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1998 “for his contributions to welfare economics“, Amartya Sen é hoje uma das maiores autoridades do mundo em teoria do desenvolvimento humano.

O livro dessa semana, “Development as Freedom“, não apenas um livro de economia. Na verdade, ele pouco se parece com um: não há fórmulas ou equações, e pode-se dizer que não é necessário nenhum tipo conhecimento prévio de economia para compreender o texto. A preocupação de Amartya Sen com o desenvolvimento vai muito além de índices per capita: sua questão principal é a articulação entre ética, democracia, liberalismo e desenvolvimento, que, para o autor, formam umúnico bloco de estudos. Desse modo, Sen é capaz de superar as deficiências das abordagens puramente economicistas da sociedade, assim como renegar o utilitarismo como medida válida para mensurar o bem-estar de um grupo social.

Sen sugere que a melhor medida para o bem-estar são as “capacidades” (capabilities), ou seja, as possibilidades que os homens têm para atingir seus objetivos. Daí o título do livro, “Desenvolvimento como Liberdade“: quanto mais livre uma sociedade, mais desenvolvimento possuem seus cidadãos. Devemos entender “liberdade” em seu sentido amplo: não apenas o liberalismo econômico, mas também a liberdade política, as oportunidades sociais, a transparência das decisões públicas e a segurança são fundamentais para que os grupos sociais consigam aumentar suas capacidades.

É interessante notar que o liberalismo de Amartya Sen é sustentado não pela “eficiência” dos mecanismos de mercado, mas por seus pressupostos éticos. Ecoando Adam Smith, Sen afirma que os mercados não são apenas boas ferramentas para alocação de recursos, mas também uma das liberdades fundamentais do homem: cada indivíduo deve ser livre para comprar e vender qualquer produto pelo preço que considerar adequado, buscando assim ampliar seu bem-estar. E isso só acontece em uma economia de mercado democrática. Embora nem todos os bens podem (ou devem) ser fornecidos pelo mercado, grande parte deles será melhor distribuída por esse mecanismo, que além de eficiente, amplia a liberdade de escolha de todos os cidadãos.

O argumento de que “a democracia é um luxo”, e que países pobres devem se sujeitar a regimes autocráticos para promover o desenvolvimento, para Amartya Sen, é uma enorme falácia. Se, por um lado, existem países que cresceram com métodos ditatoriais (China, URSS), há, por outro, uma série de nações cujo crescimento econômico se deu concomitantemente à democracia, como Índia, Botsuwana, Costa Rica, etc. Segundos vários estudos empíricos citados pos Sen (inclusive um de meu professor, Fernando Limongi), não existe correlação alguma entre ditadura e crescimento, mas sim entre a criação de um ambiente de negócios e desenvolvimento, seja em processos políticos fechados ou não.

Outro argumento de Sen em favor da democracia é que em nenhum país cujas liberdades políticas são cumpridas, ocorreram graves crises de fome. Os exemplos de fome nos últimos anos, segundo Sen, são todos países autocráticos: Somália, Coréia do Norte, Camboja e China, sendo que neste último houve a maior crise de fome da história da humanidade, com estimados 30 milhões de mortos durante o “Grande Salto À Frente“. A Índia, país também extremamente populoso – mas democrático -, não possui crises de fome desde 1947, quando libertou-se do domínio britânico. Mesmo se for realizada uma comparação entre oferta de comida e crescimento populacional, a província de Kerala (Índia) conseguiu, democraticamente, reduzir a natalidade de sua população de modo mais eficiente do que a China, o que mostra que não era necessária a coerção para atingir essa meta.

O livro de Amartya Sen é uma excelente fonte de inspiração para os países em desenvolvimento. Não só pelos sábios comentários a respeito de economia, mas também pela defesa intransigente dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, temas ainda obscuros em várias nações. Leitura altamente recomendada.

pós-escrito: agradeço ao meu amigo Eric Daniele pelas discussões que tivemos a respeito do livro de Amartya Sen, e pelos comentários específicos a este post.

Os 100 anos de Claude Lévi-Strauss

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Por Danilo, 12/11/2009 19:35

Da Revista da Cultura, por Carlos Haag.


O francês de alma brasileira

Claude Lévi-Strauss comemora seu centésimo aniversário no dia 28 de novembro. E há muito o que comemorar, principalmente no Brasil, onde colheu as sementes que o levaram a se tornar um dos mais importantes antropólogos do século 20. O então indeciso professor de filosofia na França veio lecionar sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), em 1935, e durante um período de quatro anos – até 1939 – mergulhou de cabeça na etnologia indígena. Ao conviver com a diversidade nacional, levantou grande parte dos pensamentos que serviram de base para a criação da antropologia estruturalista, corrente que ainda hoje influencia estudos em diferentes campos do conhecimento.

Atualmente, o antropólogo vive em Paris e mesmo aposentado visita freqüentemente o Laboratorio d’Anthropologie Sociale. Entre as homenagens que receberá, destaca-se um evento da Unesco em parceria com o Museu du Quai Branly, no qual serão expostos mais de 1.600 objetos que Lévi-Strauss reuniu das suas missões científicas ao longo da vida.

“É o definitivo pensador do nosso tempo, um dos seus críticos mais ferrenhos, buscando o passado por trás do presente, pesquisando e defendendo as sociedades indígenas contemporâneas sem se esquecer de levar em conta o modo como pensaram e como viveram tradicionalmente”, avalia a antropóloga Dorothea Voegeli Passetti, autora de Lévi-Strauss, antropologia e arte.

O grande etnólogo francês “nasceu” por mero acaso. “Minha carreira se decidiu num domingo de outono de 1934, às 9 horas da manhã, por meio de um telefonema”, escreveu Lévi-Strauss. Foi o diretor da École Normale Supérieure, que não nutria grandes simpatias por ele, mas o avisou de uma vaga para vir ao Brasil ensinar sociologia. “Os arrabaldes estão repletos de índios e o senhor poderá dedicar-lhes seus finais de semana”, disse o superior, dando-lhe até o meio-dia para se decidir. A isca funcionou: há tempos, se ressentia do que chamava de “ginástica intelectual vã” das suas funções, já que ficava distante da riqueza das experiências do real. A oportunidade era um bom pretexto para o filósofo frustrado iniciar seu ofício de etnólogo, ainda que nos fins de semana ou em suas férias. A partir das viagens e pesquisas etnológicas com índios kadiwéu e nambikwara, o antropólogo escreveu o celebrado Tristes trópicos, hoje considerado um verdadeiro manual da etnologia.

No tipo de trabalho que desenvolvia, Lévi-Strauss estava em sintonia com a tendência mais recente da França, representada pelo Instituto de Etnologia da Universidade de Paris, fundada por Marcel Mauss, que patrocinava pesquisas empíricas em lugares exóticos do globo. A partir dos anos 1930, ser um pesquisador “de gabinete”, como era, por exemplo, o célebre sociólogo Émile Durkheim, caiu em desuso e os jovens almejavam conhecer de perto a África, a Ásia e a América. Isso não deixará de influenciar a arte da época, em especial os surrealistas, críticos do antropocentrismo europeu, que desejavam ampliar as fronteiras do humano, afirmando que o homem não podia mais ser pensado sem seus duplos: os animais, as figuras monstruosas, os mitos e os primitivos. Amante das artes, filho de pintor, o antropólogo terá intenso contato com o referido grupo e com seu líder, André Breton.

Por causa da guerra, não pôde voltar à França depois da temporada no Brasil e instalou-se nos Estados Unidos, onde deu aulas na New School for Social Research, em Nova York. Lá, consolidou seu pensamento e deu uma guinada em sua vida, transformando-se de aprendiz de filósofo marxista em etnólogo brilhante. Na França, assumiu a cadeira de Antropologia no Collège de France, em Paris, escrevendo a maioria de suas grandes obras, como As estruturas elementares do parentesco (tese gestada durante sua estadia americana), O pensamento selvagem, Antropologia estrutural e Mitológicas. “Ele não só propôs uma nova antropologia como indicou uma nova maneira de ser antropólogo, desejando uma antropologia útil às nossas sociedades, tornando os homens mais humildes, descentrando-os em função do conhecimento que o ‘outro’ lhes oferece”, explica Dorothea.

GOLPE CONTRA O RACISMO
Sua maior contribuição é de uma simplicidade fundamental: não pode existir uma civilização absoluta mundial, porque a própria idéia de civilização implica a coexistência de culturas oferecendo entre elas o máximo de diversidade. Neste aspecto, ninguém deu um golpe mais violento no racismo do que Lévi-Strauss – como bem observou Pierre Bourdieu – e, talvez, poucos pensadores ensinaram as sociedades do mundo a ser mais humildes.

Impossível não notar nessa visão resquícios do jovem de 17 anos apaixonado pela política, um militante de esquerda que se pôs a devorar Karl Marx e participar de organizações socialistas. Mas, para além do idealismo, Lévi-Strauss encontrou no filósofo alemão a chave para a forma do seu pensamento, já que, por toda a sua vida, sempre construirá suas análises baseadas em modelos teóricos que permitem apreender a complexidade do real a partir de estruturas que a organizam.

“Esse entusiasmo por Marx nunca se aplacou e, raramente estudo um problema de sociologia ou etnologia sem reviver minha reflexão ao ler o 18 Brumário ou A crítica da economia política”, escreveu Lévi-Strauss. Com Marx, ele entenderá que o seu objetivo será construir modelos, estudar suas propriedades e as várias maneiras como eles reagirão no no laboratório. Assim, em toda sua obra, o francês passa a reduzir um tipo de realidade a outra; percebe que a verdadeira realidade nunca se manifesta abertamente; enfim, sempre fica atento à relação entre o sensível e o racional.

VALOR PRIMITIVO
Para o etnólogo, “o conjunto de costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; eles formam sistemas que existem em números limitados. As sociedades humanas, como os indivíduos, sempre escolhem certas combinações dentro de um repertório ideal que é passível de ser reconstituído. É como uma tabela periódica de elementos, em que todos os costumes aparecem agrupados em famílias”. Segundo ele, a estrutura dos mitos era idêntica em qualquer canto da Terra, confirmando que a estrutura mental da humanidade é a mesma, independentemente da raça, do clima ou da religião. A partir daí, criou o conceito de sociedades “frias” (primitivas), que se encontram “fora da história”, orientando-se pelo modo mítico de pensar, em que o mito é definido como uma “máquina de supressão do tempo”; e as sociedades “quentes” (civilizadas), que se movem dentro da história, com ênfase no progresso e na constante transformação tecnológica.

Se a ciência racionalista desprezava a mitologia, a magia e os rituais, Lévi-Strauss mostrou que esses eram recursos de uma narrativa da história tribal, expressões legítimas de manifestações de desejo e, por isso, análogas à ciência moderna, ainda que atingindo resultados diversos.

Após os terrores da Segunda Guerra, fazia sentido que sentisse admiração pelos povos primitivos, já que foi entre eles que encontrou a fraternidade. Ao mesmo tempo, ensinava que era impossível esquecer-se do conceito das diversidades e, logo, não se podia olhar para outras sociedades tomando como parâmetro a própria, afirmando superioridade sobre os chamados “primitivos”. Mais: era preciso reconhecer a força desses povos, capazes de elaborar uma sabedoria particular que os incitava a resistir a qualquer modificação de sua estrutura – que embora pudessem configurar, para muitos, uma sociedade sem progresso e parada, privilegiava a preservação da natureza, as regras matrimoniais destinadas a manter a fecundidade e o princípio político que abolia qualquer forma de decisão que não fosse baseada na unanimidade.

Para o antropólogo, o “pensamento primitivo” era, longe de simplista, algo complexo, sofisticado e que tendia mais à ordem do que as idéias de organização e progresso que as sociedades modernas estabeleciam como parâmetro, fatos que, para ele, podem ser fonte de desequilíbrio social entre seres humanos.

Passou então a atacar a “ilusão arcaica”, a crença de que o pensamento dos “povos primitivos” poderia ser comparado ao das crianças, como se eles fizessem parte da “infância da humanidade”, e as sociedades modernas, da fase adulta e madura. Ou seja, ensina que tudo o que é diverso de nós é tachado de “infantil” e “primitivo”, um erro grave e preconceituoso, resultado de uma típica visão distanciada que, no fundo, é fruto de uma relação entre dominantes e dominados.

Fonte: Revista da Cultura.

Livro da Semana: “A Natureza do Espaço”

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Por Danilo, 12/11/2009 19:31

A partir de hoje, pretendo publicar aqui no blog algumas resenhas sobre livros que me marcaram nos últimos tempos. Como minha intenção é fazê-lo semanalmente, o título dos posts serão, obviamente, “Livro da Semana”.

Não pretendo enumerar aqui um refinado catálogo bibliográfico, afirmando quais volumes devem ou não pertencer ao “cânone ocidental”. Antes o contrário: diante de meu modesto conhecimento, minha intenção é apenas a de sugerir livros que ou me foram agradáveis na leitura ou me abriram novos horizontes de pensamento. Em suma, livros que considero ou esteticamente belos, ou filosoficamente instigantes. Tudo isso de acordo com critérios puramente pessoais, abertos à crítica e à discussão.

O livro desta semana é de uma área que pouco conheço, mas que gosto muito: a geografia humana. Dentre todos os livros que li sobre o tema, um deles merece um grande destaque. É a obra-prima do grande geógrafo brasileiro Milton Santos, “A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção“.

Falemos um pouco sobre o autor. Nascido na pequena cidade baiana de Brotas de Macaúbas, Milton Santos foi um dos responsáveis pelo movimento de renovação da geografia nos anos 1970, a Geografia Crítica. O professor Milton Santos foi também doutor honoris causa em mais de uma dezena de universidades, no Brasil, na América Latina, na Europa e na Ásia. Além disso, Santos foi um dos primeiros ganhadores do Prix Vautrin Lud, distinção esta que, pelo mérito, equivale a um “Prêmio Nobel de Geografia”. Por fim, exerceu trabalhos na secretaria de planejamento da Bahia e fora consultor das Nações Unidas sobre temas urbanos.

Mas, de que valem os títulos se a obra não nos agrada? Vamos, portanto, ao livro. A obra que aqui discutimos chama a atenção já pelo subtítulo: “técnica e tempo, razão e emoção”. Como dizia Albert Camus, todo bom livro já se revela na primeira página. O que se pode perceber, então, é que não se trata de uma livro qualquer de geografia: é a geografia analisada por novos ângulos, articulando de forma inovadora as relações entre o espaço e as sociedades que nele habitam.

E o que é o espaço? “O espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações“, diz Milton Santos no início do livro. É por meio da técnica que o homem modifica o lugar onde vive, pelo instrumentos de trabalho que ele produz seu meio. Por esse raciocínio, o espaço é a ação do homem e seus objetos na terra, na qual ele cria novas formas de produzir e sobreviver. A vida humana materializa-se no espaço, hoje e sempre.

Dessa forma, vemos que o espaço não é o lugar inerte que estávamos acostumados a ver nos tempos de escola: ao invés disso, Santos afirma que a geografia é dinâmica, pois o espaço não é apenas o que estamos a fazer hoje, mas também a memória viva, cravada no solo e na pedra, do que fizemos anteriormente. O espaço é a sociedade interagindo com o que ela é, e com o que ela foi. Por exemplo, vemos no centro da cidade o Pátio do Colégio cercado por estações de metrô. Estão ali, diante de nossos olhos, cinco séculos de história condensados em um único momento presente. Basta saber ver.

Nos tempos de globalização, a velocidade das transformações se acelera. O espaço não obedece apenas aos que nele moram: o espaço serve como plataforma das empresas multinacionais, e passa a agir em função de lógicas externas (e também por técnicas externas), gerando, por vezes, lugares claramente desordenados. Podemos dar um exemplo: no atual caso da Reserva Indígena “Raposa Serra do Sol“, o que se deve seguir? O tempo da extração mineral, com seus produtos nos mercados estrangeiros, ou o tempo da terra, do dia e da noite, que por muito tempo acompanhou os índios que ali residem? O espaço se estilhaça, faltando-lhe coesão e identidade.

O lugar fraturado é, também, o lugar do conflito: as disputas entre as diferentes formas de vida se dão ali, no espaço. Por isso, ele é também “razão e emoção”. Não temos, cada um de nós, lembranças dos lugares em que crescemos ou passamos? Pois o espaço não é uma categoria abstrata, mas o lugar onde desenvolvem-se os medos, as guerras, as paixões e os sonhos. E em épocas de globalização, de medos distantes e amores distantes, que paradoxalmente se parecem muito próximos e atuais.

Antes que esse post fique demasiado longo, eu gostaria apenas de deixar um último recado. “A Natureza do Espaço” é muito mais do que essas mal-traçadas linhas que escrevi aqui. O livro é de uma abrangência ímpar, fluindo por temas como a técnica, os modos de produção, a globalização financeira, política e instrumental e, sobretudo, o lugar do homem nisso tudo. A geografia de Milton Santos é, claramente, um humanismo, daí sua beleza. É uma obra solidária, articulando os vários tipos atuais de existência em um modelo ordenado de interpretação, visando sempre a um futuro melhor. Esse livro me mostrou, de uma vez por todas, que a geografia é mais do que uma coleção de nomes de morros, rios e capitais. É uma forma de libertação, na qual o espaço do homem não é só ciência e racionalidade, mas também filosofia, arte e esperança.

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