Eleições na Alemanha: uma vitória dos liberais
No último domingo, 27 de setembro, Angela Merkel foi reeleita para o cargo de Chanceler da República Federal da Alemanha. A líder dos Democratas Cristãos (CDU) obteve 33,5% dos votos válidos, garantindo assim o comando do país mais forte da União Européia por mais quatro anos. Mas os grandes vencedores dessa eleição, no entanto, não foram os conservadores: foram os liberais.
O Partido Liberal Democrático (FDP), que adota uma forte posição pró-mercado, teve o melhor resultado da sua história (de 6,6% em 2005 para 14,9% dos votos em 2009), e passam a integrar o bloco de governo de Merkel. E o que isso significa?
Como já havia sido amplamente comentando, a antiga coalização de Merkel, entre os conservadores e os social-democratas (CDU-SPD), não estava agradando a ambas as partes. Afinal, os dois Volksparteien, os maiores da Alemanha, de fato possuem posições ideológicas muito distintas. Vejamos:
Por um lado, os Democratas Cristãos têm um agenda econômica mais à direita, enfatizando a necessidade de redução de custos empresariais, políticas de fomento às pequenas firmas e integração mais efetiva nos processos de globalização. Por outro, os social-democratas, cuja base de apoio ainda é largamente baseada nos sindicatos, tendem a dar maior destaque às questões do “estado de bem-estar social” e a criticarem medidas a favor do livre-mercado.
Com a derrota histórica do SPD nas últimas eleições – na qual tiveram 23% dos votos, seu pior resultado desde 1947 – Merkel agora pode formar um gabinete mais alinhado às preferências de seu próprio partido, e realizar algumas das mudanças que pretendia fazer no período anterior.
A entrada dos Liberais no governo é o grande acontecimento dessa votação. Seguindo uma prática antiga da democracia alemã, o líder do partido menor na coalização recebe a indicação para ser, ao mesmo tempo, Vice-Chanceler e Ministro das Relações Exteriores. Assim, Guido Westerwelle, presidente do FDP e gay assumido, passa a ocupar tais cargos, o que era desejado pelo partido de Merkel.
De certa forma, ele já vinha se preparando para isso. Westerwelle lançou, há anos atrás, uma proposta ousada de “revigorar” os Liberais: focou grande parte das ações políticas do partido na juventude, o que fez com que eles fossem extremamente bem-sucedidos nessa faixa etária em 2009. Além disso, renovou também o quadro partidário da agremiação, sendo ele mesmo o líder mais jovem que os Liberais já tiveram. Na campanha, deu certo. Ponto positivo para ele.
Mas Westerwelle tem que mostrar que é mais do que um bom estrategista partidário. Sua entrada no governo deve mexer em algumas áreas sensíveis da política alemã. Vemos, por exemplo, que o programa dos liberais pretende dar uma enorme isenção fiscal para as pequenas e médias empresas, o que além de estar de acordo com os princípios do partido, também pode vir a ajudar a economia da Alemanha nesses tempos de crise. Outra proposta diz respeito à redução de encargos trabalhistas para contratar e demitir funcionários, impossível de ser debatida em uma coalização com o SPD.
Nas relações exteriores, a presença das tropas militares alemãs do Afeganistão, uma das questões-chave do debate eleitoral recente deverá ser colocada em discussão. Ela foi levantada sobretudo pelo partido da esquerda, Die Linke, e provavelmente foi uma das causas do aumento da popularidade desse grupo nas urnas. Embora os Liberais foram a favor do envio de tropas nacionais para combater sob a bandeira da OTAN, Westerwelle foi incisivo ao declarar que gostaria que elas fossem limitadas a um pequeno número, com um claro cronograma de retorno. No caso do Irã, deve-se manter a continuidade do período anterior: a defesa da diplomacia, mas também com sanções severas caso Ahmadinejad se recusar a cooperar.
Angela Merkel, por motivos partidários e governamentais, provavelmente seguirá uma via mais moderada. Mas não muito. Embora a CDU ainda seja o maior partido do país ela também perdeu cadeiras em 2009, e sua ‘irmã menor’, a CSU (que nada mais é do que os conservadores católicos da Baviera), saiu muito enfraquecida dessa eleição. Com o grande número de votos dos FDP, é normal que ele passem a exercer uma influência maior no gabinete, e provavelmente alguns pontos de conflito irão aparecer entre eles. É de se esperar, por exemplo, uma disputa entre o Westerwelle e Wolfgang Schäuble, Ministro do Interior pela CDU, que defende idéias controversas em matéria de direitos civis e segurança tais como: o fim da dupla cidadania nacional; a não-presunção de inocência e a possibilidade de “assassinatos preventivos” para suspeitos de terrorismo, etc. Setores do FDP certamente serão contrários a tais medidas, claramente afrontosas ao conceito de rule of law, um dos pilares do liberalismo.
Existem também a possibilidade de tensões entre os liberais e Karl Theodor zu Guttenberg (CSU), já que o popular Ministro das Finanças não quer cortes de impostos tão significativos. Devido aos grandes gastos públicos do governo alemão na época da crise (ajuda às empresas e bancos), Guttenberg vai evitar, a todo custo, o decréscimo na arrecação fiscal. E isso pode vir a diminuir o ritmo das negociações dentro da coalização “preta e amarela” que irá comandar o país.
Mas, de qualquer maneira, a Alemanha tem motivos para estar otimista. Não só sua economia está mais estável do que a de seus companheiros de União Européia, mas também sua política está trazendo uma grande inovação. Depois de anos sendo governada pelos dois grandes partidos, os alemães agora estão mais livres para implementar reformas modernizadoras e necessárias. Só resta saber como Merkel mediará os conflitos internos de sua coalização. O sucesso do novo gabinete depende, em grande parte, desse equilíbrio.

