Está aí um senhor muito moderno. Esse simpático velhinho inglês de 82 anos, Owen Brown, chamou a atenção da BBC UK por seu gosto musical: ele é um grande fã de heavy metal. É isso mesmo: a coleção de Brown está cheia de discos do Iron Maiden, Judas Priest, Megadeth, entre outras grandes bandas de rock pesado. Um grande viva para o “vovô rock’n'roll” e eu também espero, se chegar aos 80 anos, continuar ouvindo os velhos discos do Metallica, Mastodon, Alice In Chains e tudo mais.
Update: O “vovô” está ficando famoso! Não só ele é uma das pessoas mais queridas pela ‘comunidade’ heavy metal (é só ver os comentários aqui, no Blabbermouth), mas também as bandas se sensibilizaram por sua história: Iron Maiden, Megadeth e Def Leppard enviaram CDs e posters ao senhor Brown. O Slipknot chegou até a convidá-lo para ir – como VIP – ao maior show de rock do Reino Unido, o Download Festival! Veja o novo vídeo aqui no site da BBC UK. Parabéns vovô, e que o senhor chegue até os 100 em alto e bom som!
Aqui está o novo clip do Mastodon, “Oblivion”, a primeira faixa de seu último disco Crack the Skye. Até agora, acredito que esse é o melhor lançamento de ano. E de longe. Segue o vídeo:
Sayvinyl é uma banda muito boa. É formada por cinco caras de San Diego, e seu som pode ser caracterizado como indie rock, mas sem parecer uma cópia descarada do Radiohead ou do Bright Eyes. Vale a pena pegar esse primeiro CD dos caras, God Forbid, colocar no iPod ou no som do carro, e dar uma volta por aí. Garanto que vai ser uma boa experiência.
Mas o Sayvinyl não é apenas uma banda legal, eles são gente boa também. Apesar de vender seu disco novo em CD ou mp3 em uma série de lojas (clique aqui Amazon, Emusic, iTunes), eles também disponibilizaram suas músicas de graça no Last.fm, para ouvir e baixar.
Se puderem, comprem o CD da banda, ou façam uma doação diretamente para a banda, clicando aqui. É sempre importante incentivar bandas que têm a cabeça aberta para as novas tecnologias. E que também fazem boa música, é claro!
Dêem uma olhada nesse site: http://www.grooveshark.com. O Grooveshark é, hoje em dia, o melhor site para se ouvir música diretamente na rede. É isso mesmo: basta digitar um título ou um artista e ouvir o som. E tudo de graça, é claro.
Eu não sei por quanto tempo o site vai conseguir manter um acervo tão grande para streaming gratuito. O JustHearIt.com, que oferece um serviço semelhante, teve que retirar quase todo o seu conteúdo, devido a problemas de direito autoral com as grandes gravadoras. Atualmente, só restam os vídeos do YouTube, mas quem vai querer usar um site que apenas mostra o que você pode ver em outro?
Em um post anterior, eu disse que o pior disco do ano já havia sido lançado. Posso repetir sem medo de errar: até agora, “Scream“, de Chris Cornell, ainda não tem concorrente à altura na categoria “Discos Horríveis de 2009″. Mas como todo mundo diz, falar mal é fácil. Hoje eu venho aqui fazer o contrário. Vou recomendar um disco excelente: “Crack the Skye“, do Mastodon.
Para quem não conhece a banda, aqui vai uma breve introdução: o Mastodon foi formado em 1999, na cidade de Atlanta, e podemos definir o seu estilo como “Progressive/Sludge Metal”. Ou seja, os caipiras tocam rock pesado, mas possuem melodias complexas, harmonias sofisticadas e timbres bem diferentes nas músicas. Na minha opinião, eles têm o melhor dos dois mundos: a energia do heavy metal e a técnica do progressivo, sem cair nos excessos de um ou de outro. Não é à toa que o Mastodon é, atualmente, considerada a melhor banda do “New Wave of American Heavy Metal“, mesmo enfrentando concorrentes de peso como Lamb of God, Killswitch Engage e Trivium.
Depois de lançar três discos muito bons – os dois últimos, “Leviathan” e “Blood Mountain“, são estupendos – o Mastodon chega seu “Vol. 4” com muito estilo: “Crack The Skye” não fica devendo nada aos antigos lançamentos dos caras. Muito pelo contrário: aqui, as melodias, ao que me parece, estão ainda mais bem-elaboradas e o vocais muito caprichados. Bom, do instrumental eu não vou nem falar: não há como não se surpreender com os riffs, solos de guitarra e viradas de bateria no CD. São de deixar qualquer um boquiaberto, com certeza.
Mas vamos começar por onde se deve: pelo começo. A primeira coisa que você percebe ao pegar o CD nas mãos, é que a arte do disco é muito, muito bonita. O encarte é excelente, e o trabalho do ilustrador é impecável. O site que os caras fizeram para promover o disco, http://www.cracktheskye.com/, tem as mesmas imagens do CD. Dê uma passada lá e você vai entender porque eu estou falando tão bem da arte do álbum.
As letras do disco, por sua vez, são bem distintas: tragédias familiares, viagens astrais, teorias dos “wormholes”, e até Rasputin e a Rússia Czarista (!!) aparecem, curiosamente, todos interligados. Embora seja um pouco estranho à primeira vista, com o tempo você consegue perceber que a mensagem funciona, e como as músicas estão tão bem encaixadas nas palavras, nada soa forçado. Nada mesmo. Aliás, isso é algo a se destacar: embora a maioria das faixas sejam grandes (”The Tzar” tem 11 minutos, e a belíssima “The Last Baron” tem 13), em momento algum o disco parece arrastado, e as músicas prendem a atenção do ouvinte o tempo todo. Como disse o pessoal do Pitchfork Media, “Mastodon operates something like prime-era Metallica, unleashing these huge, blistering tracks that journey over peaks and valleys and ditches and oceans before leaving you spinning“. Falaram tudo. Embora “Crack the Skye” seja menos pesado do que “Leviathan” e “Blood Mountain“, as variações são mais intensas, e eu acho isso ótimo. Quase ninguém sabe mais fazer esse tipo de coisa no rock pesado, não é?
Tudo no disco é complexo, honesto e orgânico. Não há como não ouvir isso logo de cara. As primeiras duas músicas, “Oblivion” e “Divinations”, disponíveis no MySpace do quarteto, já mostram o espírito do disco. Clique ali e ouça também a melhor música do disco que, em minha opinião, é “The Last Baron”.
Sem mais, esse é o melhor disco que ouvi esse ano. Além disso, não só é o álbum que recebeu as maiores notas em 2009, de acordo com o Rate Your Music, mas também levou 97% de aprovação no rigoroso Encyclopeadia Metallum. Não é para menos: é metal de vanguarda, de primeiríssima qualidade. Compre, pegue emprestado, alugue, roube, não importa: mas por favor, ouça o som dos caras. Se puder, compre a edição limitada do CD, que vem com uma linda litografia da capa. Mas, de qualquer forma, o que importa é a música. E aqui ela é nota 10, sem sombra de dúvida.
p.s.: Achei um making of do disco no YouTube, dêem uma olhada:
Paul Potts era um vendedor de celulares. Inglês nascido em Bristol, mas atualmente residindo no País de Gales, Potts resolveu se inscrever no “British Got Talent”, um programa de calouros, cujos prêmios finais são a gravação de um CD e uma apresentação privada para Sua Majestade. Tímido, Paul disse – para a surpresa de todos – que iria cantar uma ópera naquela noite. Cantou um trecho da famosa ária de Puccini, Nessum Dorma. Não tenho palavras para descrever o que aconteceu daí por diante. Vejam:
Ontem, como sempre, o Metrô de São Paulo estava cheio. Apesar disso, consegui ainda sentar-me, e pude folhear um bom livro de Microeconomia que tinha nas mãos (o manual de Pindyck & Rubinfeld, Microeconomics). Em poucos instantes, no entanto, notei a entrada de um homem já de meia-idade, que caminhava com certa dificuldade. Pedi a ele que ocupasse o meu lugar, o que, de pronto, ele atendeu. Agradecido, o senhor gentilmente se ofereceu para segurar o meu volumoso manual; foi aí que notei que ele também carregava um livro. E não era um livro qualquer, era a Bíblia.
Logo percebi tratar-se aquele senhor de um pastor, provavelmente indo a um sermão (ou prédica, caso ele seja luterano). A Bíblia que ele portava era a Authorized King James Version, uma das mais importantes traduções do livro até hoje. Perguntei-lhe então se o texto de King James o agradava, e começamos assim uma conversa sobre o papel da “King James” na difusão do texto bíblico. Afinal, como em mim a fé em Deus há muito esmoreceu, resta-me apenas discutir os aspectos históricos e etimológicos da Bíblia: se àquele pastor o livro ainda era a prova viva da Palavra do Senhor, para mim, hoje é pouco mais que uma curiosidade científica ou um código de conduta. Mas, curiosamente, nada disso tolheu nosso proveitoso diálogo: falamos bastante, e foi-me de especial interesse suas idéias sobre a inclusão dos Apócrifos na Bíblia de King James, talvez surgida pelo interesse, à época, dos protestantes ingleses na leitura desses livros, ainda hoje contestados por grande parte da liturgia.
Após algumas estações, despedi-me do pastor e segui meu caminho. Estava ouvindo a música cujo vídeo está abaixo. Coincidentemente, a canção é um spiritual antigo, cantado por Son House (um dos pais do Blues), que queria ser pastor batista quando jovem. A música chama-se “John The Revelator“, e a autoria é desconhecida. Mas caiu como uma luva naquele momento.
Confesso que meu respeito pelos protestantes é enorme. Admiro o modo pelo qual levam uma vida ordenada e modesta, quase toda dedicada exclusivamente ao trabalho e à caridade ad majorem Dei gloriam, para maior glória de Deus. Hoje, ateu, custa-me a crer em um Ser Supremo, criador ou mantenedor do cosmos. Depois que uma pessoa se torna apóstata, dificilmente Ele ressurge em sua consciência. Não me arrependo do ateísmo: atualmente, parece-me mais sólida a idéia de um universo natural, sem Criador e com Big Bang, e a de uma evolução das espécies, sem Adão e com macacos. A religião, para mim, é apenas um conforto psicológico, não apenas perante a realidade de não sabermos tudo, mas também perante a possibilidade da existência ser desprovida de significado. E se Deus existisse, por qual motivo daria sua palavra a seres como nós, e não a outros, em todo o universo? Ainda assim, se ele surgisse para nós, quem garante que alguém ia compreendê-lo? E o que aconteceram com os antigos deuses fenícios, babilônios, persas, egípcios, gregos, nórdicos? Se eles morreram, quem garante que o nosso também não morrerá? São perguntas para as quais, até hoje, não encontrei respostas satisfatórias.
Contudo, ao ouvir o Son House e muitos outros protestantes que conheci, que levaram vidas desastrosas e que a religião deu-lhes força para reconstruírem-se dignamente, não consigo discordar da frase de Julian Barnes: “I don’t believe in God, but I miss Him“. Nem sempre é fácil olhar para um céu vazio.
Qual é o motivo para gostarmos de música? Que papel as melodias, o canto e a dança têm na evolução de nossa espécie? Embora essas questões ainda sejam, notadamente, abertas ao debate, a The Economist publicou como matéria de capa dessa semana o seguinte artigo: “Why Music?”, “Por que música?”.
A publicação inglesa destaca alguns dos pontos de vista de biólogos a respeito da função da música na cultura e na evolução da humanidade. Vale a pena uma leitura!
Hoje trago um vídeo da minha banda favorita. Após o péssimo St. Anger, o Metallica faz um “retorno à forma” com um excelente álbum, Death Magnetic, lançado em setembro de 2008. O clipe abaixo é o segundo oriundo desse disco, da música “All Nightmare Long“. Confesso que o achei o vídeo bem esquisito, pois conta uma curiosa história misturando alienígenas, soviéticos e zumbis, em uma referência ao “Episódio Tunguska“. Mas é um tanto divertido. Vejam:
O livro desta semana é sobre música. Sobre boa música, acima de tudo. Trata-se de um excelente retrato do blues americano, tronco sobre o qual frutificaram o jazz e o rock’n'roll. Embora seja melhor ouvir diretamente um estilo musical do que tentar entendê-lo por meio de um livro, o texto que aqui recomendo é de primeira. O livro chama-se “Delta Blues: The Life and Times of the Mississippi Masters Who Revolutionised American Music“, e seu autor é Ted Gioia. O delta em questão é o dos rios Mississipi e Yazoo, uma grande área de plantações de algodão, onde os negros trabalhavam de sol a sol. A escravidão já havia terminado, mas sua sombra ainda projetava-se por toda a sociedade. Os negros logo perceberam que a liberdade não dava-lhes grandes benefícios, uma vez que continuavam a viver em dois lugares: na plantação ou na cadeia. Restava-lhes cantar a dureza do cotidiano, mesclando os antigos spirituals com novos acordes.
O que surgiu, foi uma das mais profundas formas de expressão musical do século XX. E o Delta foi especialmente prolífico: vários dos maiores bluesman de todos os tempos ali nasceram, como Charley Patton, Bukka White, Son House, Skip James e claro, o maior de todos, Robert Johnson. Deste último, que gravou apenas 29 músicas, tirou duas fotografias e desapareceu sem deixar vestígios, conta-se que vendeu a alma ao demônio em uma encruzilhada da Highway 61, com a condição de que o diabo ensinasse-lhe as mais poderosas melodias do mundo. E o resto é história.
O livro de Ted Gioia é ótimo para uma introdução a este estilo musical tão importante, que hoje está praticamente esquecido. Mas que ainda é capaz de sensibilizar os ouvintes de forma impressionante. Abaixo segue um vídeo, no qual estão interpretados Blind Willie Johnson e Skip James, nativo do Delta. O trecho faz parte de um filme de Wim Wenders, que, por sua vez, integra um ótimo conjunto de 7 DVDs organizados por Martin Scorsese, chamado-se apenas “The Blues” (que é facilmente encontrado na Livraria Cultura por um preço justo).
Vejam as letras, que são lindas, e reparem no dramático discurso feito por um pastor negro, durante os duros anos da Grande Depressão de 1930. Isso é o blues.