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Zhao Ziyang: um mandarim liberal

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Por Danilo, 12/11/2009 20:38

Paz Celestial

Não há pessoa que não tenha visto essa famosa fotografia. O anônimo estudante chinês que, desarmado, tentou bloquear o avanço dos tanques tornou-se um dos maiores ícones da resistência contra a repressão estatal. Naquele conturbado ano de 1989 – que propiciou a queda do Muro de Berlim, a atuação do sindicato “Solidariedade” na Polônia, a “Revolução de Veludo” na Tchecoslováquia e mesmo as primeiras eleições diretas no Brasil desde 1960 – o “Massacre da Paz Celestial” teve enorme repercussão na opinião pública da época e, de modo contundente, mostrava que havia “algo de podre no reino dos mandarins”.

Embora não se possa ver pela fotografia, o estudante não estava sozinho. Tinha a seu lado não só um vasto número de intelectuais e colegas, mas também oficiais de alta patente no governo chinês. Hoje poucos lembram que a causa imediata para o acirramento da movimentação estudantil foi a morte de Hu Yaobang, ex-Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês e reformador convicto. Mas naquele 4 de junho, a grande figura foi, sem sombra de dúvida, Zhao Ziyang. Zhao foi um dos grandes propositores da modernização chinesa por meio das reformas econômicas, todas em favor do livre-mercado e da privatização, do combate à corrupção e da redução do poder da burocracia partidária. Também defendeu uma importante divisão entre o Estado e o Partido que até hoje não ocorreu, e continua a causar danos para a sociedade civil chinesa.

No fatídico dia do “Massacre”, Zhao fez um discurso em favor dos estudantes, afirmando a necessidade de diálogo e reavaliação das posturas do PCC. As frases são de uma honestidade nunca antes vista no governo chinês: “Estudantes, nós chegamos tarde. Desculpem-nos. Vocês falam sobre nós, nos criticam, e tudo isso é necessário. Não venho aqui pedir a vocês que nos perdoem. Tudo o que eu tenho a dizer é que os estudantes estão ficando fracos, nesse sétimo dia de greve de fome. [...] Vocês são jovens, ainda têm muito tempo pela frente, e devem estar saudáveis para quando a China alcançar suas quatro modernizações‘. Vocês não são como nós, que somos velhos. [...] Eu só tenho um pedido: se vocês pararem com a greve de fome, o governo não vai fechar a porta do diálogo, nunca!“. Horas depois dessas palavras, que foram transmitidas pela rede pública de televisão, Zhao foi deposto de seu cargo e condenado à prisão domiciliar, de onde só viria a sair morto, quinze anos depois. Não é necessário dizer que tais punições – assim como o avanço das tropas contra os estudantes – foram ordenados pelos linha-dura do Partido Comunista que, de uma forma ou outra, estão no poder até hoje.

Zhao Ziyang

Mas Zhao conseguiu uma façanha, apesar de ter sido banido dos meios de comunicação chineses. Mesmo sob intensa vigilância, gravou horas de depoimentos em segredo, e essas fitas foram levadas ao exterior. E no próximo dia 4 de Junho, 20 anos após o “Massacre”, será lançada sua autobiografia: Prisoner of the State: The Secret Journal of Premier Zhao Ziyang. Nela, é possível imaginar o que teria acontecido se Zhao tivesse saído vitorioso do embate partidário: uma China mais pluralista, mesmo com o PCC ainda no poder, com menos favoritismo e corrupção. Jianli Yang, um dos estudantes presentes nas ações de 1989, disse à Foreign Policy: “Zhao’s reforms, one might imagine, would have proceeded at a purposeful but amenable pace, beginning with an opening of partial freedoms of assembly and demonstration. [...] Public participation would have followed, with public debate emerging on difficult questions from ethnic relations, to foreign affairs, to government corruption, to HIV/AIDS and the environment. In other words, China would have embarked on a peaceful transition to democracy. A democratic China — one that followed Zhao’s model — would have prospered economically, too.

Dessa forma, vale a pena a leitura da autobiografia de Zhao. É, como diz o artigo da Foreign Policy, “uma história alternativa da China”. Embora é certo que sua leitura será proibida no país, talvez cópias piratas e pdfs estejam disponíveis. De acordo com a Reuters, em Hong-Kong, onde o livro já foi lançado, a primeira edição esgotou-se em questão de horas. Talvez o interesse exista porque a mensagem final de Zhao era simples e clara: “Nós devemos estabelecer que a meta final da reforma política é a realização desse sistema político avançado [a democracia]. Se nós não nos movermos em direção a esta meta, será impossível resolver as condições anormais da economia de mercado chinesa“. Essas palavras, no entanto, não são adequadas apenas para a conjuntura da China, mas são úteis e inspiradoras para todos os países, sobretudo aqueles que enfrentam profundas desigualdades em um processo acelerado de crescimento. Você conhece algum outro país com tais características?

Para ler um excerto do livro, em inglês, clique aqui: New York Times – Excerpts From Zhao Ziyang’s ‘Prisoner of the State’

Bibliografia: “Delta Blues”

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Por Danilo, 12/11/2009 19:49

O livro desta semana é sobre música. Sobre boa música, acima de tudo. Trata-se de um excelente retrato do blues americano, tronco sobre o qual frutificaram o jazz e o rock’n'roll. Embora seja melhor ouvir diretamente um estilo musical do que tentar entendê-lo por meio de um livro, o texto que aqui recomendo é de primeira. O livro chama-se “Delta Blues: The Life and Times of the Mississippi Masters Who Revolutionised American Music“, e seu autor é Ted Gioia. O delta em questão é o dos rios Mississipi e Yazoo, uma grande área de plantações de algodão, onde os negros trabalhavam de sol a sol. A escravidão já havia terminado, mas sua sombra ainda projetava-se por toda a sociedade. Os negros logo perceberam que a liberdade não dava-lhes grandes benefícios, uma vez que continuavam a viver em dois lugares: na plantação ou na cadeia. Restava-lhes cantar a dureza do cotidiano, mesclando os antigos spirituals com novos acordes.

O que surgiu, foi uma das mais profundas formas de expressão musical do século XX. E o Delta foi especialmente prolífico: vários dos maiores bluesman de todos os tempos ali nasceram, como Charley Patton, Bukka White, Son House, Skip James e claro, o maior de todos, Robert Johnson. Deste último, que gravou apenas 29 músicas, tirou duas fotografias e desapareceu sem deixar vestígios, conta-se que vendeu a alma ao demônio em uma encruzilhada da Highway 61, com a condição de que o diabo ensinasse-lhe as mais poderosas melodias do mundo. E o resto é história.

O livro de Ted Gioia é ótimo para uma introdução a este estilo musical tão importante, que hoje está praticamente esquecido. Mas que ainda é capaz de sensibilizar os ouvintes de forma impressionante. Abaixo segue um vídeo, no qual estão interpretados Blind Willie Johnson e Skip James, nativo do Delta. O trecho faz parte de um filme de Wim Wenders, que, por sua vez, integra um ótimo conjunto de 7 DVDs organizados por Martin Scorsese, chamado-se apenas “The Blues” (que é facilmente encontrado na Livraria Cultura por um preço justo).

Vejam as letras, que são lindas, e reparem no dramático discurso feito por um pastor negro, durante os duros anos da Grande Depressão de 1930. Isso é o blues.

Bibliografia: “Development as Freedom”

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Por Danilo, 12/11/2009 19:39

Amartya Sen é avis rara no campo da economia. Se a tendência dos atuais pesquisadores da área é focar-se em assuntos cada vez mais específicos, cujos teoremas possuem pouca utilidade fora de sua estreita margem de aplicação, o indiano tem como objetivo o estudo das grandes questões sociais, como a pobreza, a fome e gênero. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1998 “for his contributions to welfare economics“, Amartya Sen é hoje uma das maiores autoridades do mundo em teoria do desenvolvimento humano.

O livro dessa semana, “Development as Freedom“, não apenas um livro de economia. Na verdade, ele pouco se parece com um: não há fórmulas ou equações, e pode-se dizer que não é necessário nenhum tipo conhecimento prévio de economia para compreender o texto. A preocupação de Amartya Sen com o desenvolvimento vai muito além de índices per capita: sua questão principal é a articulação entre ética, democracia, liberalismo e desenvolvimento, que, para o autor, formam umúnico bloco de estudos. Desse modo, Sen é capaz de superar as deficiências das abordagens puramente economicistas da sociedade, assim como renegar o utilitarismo como medida válida para mensurar o bem-estar de um grupo social.

Sen sugere que a melhor medida para o bem-estar são as “capacidades” (capabilities), ou seja, as possibilidades que os homens têm para atingir seus objetivos. Daí o título do livro, “Desenvolvimento como Liberdade“: quanto mais livre uma sociedade, mais desenvolvimento possuem seus cidadãos. Devemos entender “liberdade” em seu sentido amplo: não apenas o liberalismo econômico, mas também a liberdade política, as oportunidades sociais, a transparência das decisões públicas e a segurança são fundamentais para que os grupos sociais consigam aumentar suas capacidades.

É interessante notar que o liberalismo de Amartya Sen é sustentado não pela “eficiência” dos mecanismos de mercado, mas por seus pressupostos éticos. Ecoando Adam Smith, Sen afirma que os mercados não são apenas boas ferramentas para alocação de recursos, mas também uma das liberdades fundamentais do homem: cada indivíduo deve ser livre para comprar e vender qualquer produto pelo preço que considerar adequado, buscando assim ampliar seu bem-estar. E isso só acontece em uma economia de mercado democrática. Embora nem todos os bens podem (ou devem) ser fornecidos pelo mercado, grande parte deles será melhor distribuída por esse mecanismo, que além de eficiente, amplia a liberdade de escolha de todos os cidadãos.

O argumento de que “a democracia é um luxo”, e que países pobres devem se sujeitar a regimes autocráticos para promover o desenvolvimento, para Amartya Sen, é uma enorme falácia. Se, por um lado, existem países que cresceram com métodos ditatoriais (China, URSS), há, por outro, uma série de nações cujo crescimento econômico se deu concomitantemente à democracia, como Índia, Botsuwana, Costa Rica, etc. Segundos vários estudos empíricos citados pos Sen (inclusive um de meu professor, Fernando Limongi), não existe correlação alguma entre ditadura e crescimento, mas sim entre a criação de um ambiente de negócios e desenvolvimento, seja em processos políticos fechados ou não.

Outro argumento de Sen em favor da democracia é que em nenhum país cujas liberdades políticas são cumpridas, ocorreram graves crises de fome. Os exemplos de fome nos últimos anos, segundo Sen, são todos países autocráticos: Somália, Coréia do Norte, Camboja e China, sendo que neste último houve a maior crise de fome da história da humanidade, com estimados 30 milhões de mortos durante o “Grande Salto À Frente“. A Índia, país também extremamente populoso – mas democrático -, não possui crises de fome desde 1947, quando libertou-se do domínio britânico. Mesmo se for realizada uma comparação entre oferta de comida e crescimento populacional, a província de Kerala (Índia) conseguiu, democraticamente, reduzir a natalidade de sua população de modo mais eficiente do que a China, o que mostra que não era necessária a coerção para atingir essa meta.

O livro de Amartya Sen é uma excelente fonte de inspiração para os países em desenvolvimento. Não só pelos sábios comentários a respeito de economia, mas também pela defesa intransigente dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, temas ainda obscuros em várias nações. Leitura altamente recomendada.

pós-escrito: agradeço ao meu amigo Eric Daniele pelas discussões que tivemos a respeito do livro de Amartya Sen, e pelos comentários específicos a este post.

Bibliografia: “História Social do Jazz”

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Por Danilo, 12/11/2009 19:36

Louis

O livro da semana é “História Social do Jazz” (”The Jazz Scene“), escrito por Eric Hobsbawm em 1959. Na verdade, o autor desse livro não é o historiador inglês, mas um certo Francis Black, colunista de jazz que possui o mesmo nome de um famoso trumpetista da época. Calma: na verdade, os dois são a mesma pessoa. Hobsbawm escreveu este livro usando um pseudônimo, em uma tentativa de separar o ‘historiador acadêmico’ do ‘cronista de jazz’, uma vez que este estilo, naquele tempo, não detinha o mesmo prestígio que possui atualmente. Em poucas palavras, um acadêmico respeitável não escreveria sobre um “tema tão vulgar” quanto aquele. Mas, felizmente, Hosbawm não seguiu esse conselho e escreveu um excelente livro. Para a sorte nossa e da música.

“História Social do Jazz” é hoje um bestseller. Traduzido para o francês, tcheco, espanhol, português, italiano, grego e japonês, o livro mostra que não só o enorme prestígio de seu autor mundo afora, mas também que os leitores não perderam o interesse no jazz, uma das formas de música mais importantes do século XX (e espero que do XXI também).

Na “Introdução à edição de 1989″, presente na atual versão brasileira, Hobsbawm traça a linha-mestra de seu livro: seu objetivo não é estudar o jazz em si mesmo, mas o jazz na sociedade, a forma na qual esse estilo musical surgiu e disseminou-se pelo mundo. O jazz, um dos derivados do blues americano, música de negros da periferia, hoje atingiu um patamar invejável de apreciação e culto em vários países, e é importante explicar o que há de especial nesse fenômeno cultural.

Mas o que é curioso é que o jazz, ao contrário de outros estilos, sempre teve um relação muito complicada com o mercado. Existia – e de certa forma ainda existe – uma permanente tensão entre arte e comércio no jazz. A cada ’surto de popularidade’ de uma corrente de jazz, logo surgia um movimento oposto, tentando recolocar o estilo apenas para os ‘iniciados’. Talvez aí esteja uma das causas da crescente complexidade harmônica e melódica do jazz, como alguém pode perceber ao comparar uma antiga big band dos anos 1930 com um conjunto de free jazz dos anos 60. Se na primeira havia um forte senso de harmonia e estrutura (pensemos em Glenn Miller), no segundo, não há nenhuma relação direta entre tonalidade ou ritmo entre os integrantes (como vemos em Ornette Coleman). Por um lado, um tipo pasteurizado de jazz disseminou-se por toda a cultura pop; por outro, seu estilo baseado no improviso dificulta a padronização necessária à produção cultural de massa. E assim, em expansões e contrações, o estilo mantem-se até os dias atuais.

Nos capítulos seguintes, Hobsbawm traça um minucioso panorama histórico do jazz. Mostra suas origens no blues rural, a típica música dos negros pobres dos EUA. Depois, o jazz passa a habitar as cidades, que se expandiam grandemente no começo do século XX, e adapta-se totalmente a esse novo contexto. É justamente por ter se tornado uma forma de expressão urbana, e envolver uma série de profissões urbanas em sua realização (empresários, produtores, publicitários, agentes de show), que o jazz passou a ser o estilo musical mais famoso dos anos 1930-50. Há também os conflitos entre negros e brancos, que permeia grande parte da história do jazz e dos EUA: como não lembrar que a cantora Bessie Smith morreu porque negaram-lhe atendimento em um hospital só para brancos? Ou então que muito do lucro do jazz ficaria na mão dos empresários – em sua maioria brancos – enquanto vários dos artistas negros continuariam a ter sérios problemas financeiros?

Mas nem tudo é tristeza. O jazz, afinal, sobreviveu aos tempos difíceis e continua firme e forte. Talvez seu sucesso venho do fato do jazz ser uma arte contraditória, como os homens que a criaram: apesar de centenário, o jazz renova-se todas as noites, pois a improvisação ainda é sua base fundamental; é música de solistas, mas nunca o conjunto foi tão importante; é estilo de elite, mas o mundo todo conhece seus standards; é difícil de se compreender, mas todos sorriem ao ver Louis Armstrong cantar.

“História Social do Jazz” é uma boa introdução a esse mundo musical. É provável que o livro possa ser melhor apreciado caso seja lido em conjunto com outro manual, como o “The Penguin Guide to Jazz Recordings” ou o “The Cambridge Companion to Jazz“, ambos excelentes em informações biográficas dos maiores músicos de jazz. Mas isso de modo algum retira a importância do livro de Eric Hobsbawm, cujo mérito está em analisar o jazz não só em termos estéticos, mas como um movimento social. Na verdade, aí reside sua grande importância. :)

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