A partir de hoje, pretendo publicar aqui no blog algumas resenhas sobre livros que me marcaram nos últimos tempos. Como minha intenção é fazê-lo semanalmente, o título dos posts serão, obviamente, “Livro da Semana”.
Não pretendo enumerar aqui um refinado catálogo bibliográfico, afirmando quais volumes devem ou não pertencer ao “cânone ocidental”. Antes o contrário: diante de meu modesto conhecimento, minha intenção é apenas a de sugerir livros que ou me foram agradáveis na leitura ou me abriram novos horizontes de pensamento. Em suma, livros que considero ou esteticamente belos, ou filosoficamente instigantes. Tudo isso de acordo com critérios puramente pessoais, abertos à crítica e à discussão.
O livro desta semana é de uma área que pouco conheço, mas que gosto muito: a geografia humana. Dentre todos os livros que li sobre o tema, um deles merece um grande destaque. É a obra-prima do grande geógrafo brasileiro Milton Santos, “A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção“.
Falemos um pouco sobre o autor. Nascido na pequena cidade baiana de Brotas de Macaúbas, Milton Santos foi um dos responsáveis pelo movimento de renovação da geografia nos anos 1970, a Geografia Crítica. O professor Milton Santos foi também doutor honoris causa em mais de uma dezena de universidades, no Brasil, na América Latina, na Europa e na Ásia. Além disso, Santos foi um dos primeiros ganhadores do Prix Vautrin Lud, distinção esta que, pelo mérito, equivale a um “Prêmio Nobel de Geografia”. Por fim, exerceu trabalhos na secretaria de planejamento da Bahia e fora consultor das Nações Unidas sobre temas urbanos.
Mas, de que valem os títulos se a obra não nos agrada? Vamos, portanto, ao livro. A obra que aqui discutimos chama a atenção já pelo subtítulo: “técnica e tempo, razão e emoção”. Como dizia Albert Camus, todo bom livro já se revela na primeira página. O que se pode perceber, então, é que não se trata de uma livro qualquer de geografia: é a geografia analisada por novos ângulos, articulando de forma inovadora as relações entre o espaço e as sociedades que nele habitam.
E o que é o espaço? “O espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações“, diz Milton Santos no início do livro. É por meio da técnica que o homem modifica o lugar onde vive, pelo instrumentos de trabalho que ele produz seu meio. Por esse raciocínio, o espaço é a ação do homem e seus objetos na terra, na qual ele cria novas formas de produzir e sobreviver. A vida humana materializa-se no espaço, hoje e sempre.
Dessa forma, vemos que o espaço não é o lugar inerte que estávamos acostumados a ver nos tempos de escola: ao invés disso, Santos afirma que a geografia é dinâmica, pois o espaço não é apenas o que estamos a fazer hoje, mas também a memória viva, cravada no solo e na pedra, do que fizemos anteriormente. O espaço é a sociedade interagindo com o que ela é, e com o que ela foi. Por exemplo, vemos no centro da cidade o Pátio do Colégio cercado por estações de metrô. Estão ali, diante de nossos olhos, cinco séculos de história condensados em um único momento presente. Basta saber ver.
Nos tempos de globalização, a velocidade das transformações se acelera. O espaço não obedece apenas aos que nele moram: o espaço serve como plataforma das empresas multinacionais, e passa a agir em função de lógicas externas (e também por técnicas externas), gerando, por vezes, lugares claramente desordenados. Podemos dar um exemplo: no atual caso da Reserva Indígena “Raposa Serra do Sol“, o que se deve seguir? O tempo da extração mineral, com seus produtos nos mercados estrangeiros, ou o tempo da terra, do dia e da noite, que por muito tempo acompanhou os índios que ali residem? O espaço se estilhaça, faltando-lhe coesão e identidade.
O lugar fraturado é, também, o lugar do conflito: as disputas entre as diferentes formas de vida se dão ali, no espaço. Por isso, ele é também “razão e emoção”. Não temos, cada um de nós, lembranças dos lugares em que crescemos ou passamos? Pois o espaço não é uma categoria abstrata, mas o lugar onde desenvolvem-se os medos, as guerras, as paixões e os sonhos. E em épocas de globalização, de medos distantes e amores distantes, que paradoxalmente se parecem muito próximos e atuais.
Antes que esse post fique demasiado longo, eu gostaria apenas de deixar um último recado. “A Natureza do Espaço” é muito mais do que essas mal-traçadas linhas que escrevi aqui. O livro é de uma abrangência ímpar, fluindo por temas como a técnica, os modos de produção, a globalização financeira, política e instrumental e, sobretudo, o lugar do homem nisso tudo. A geografia de Milton Santos é, claramente, um humanismo, daí sua beleza. É uma obra solidária, articulando os vários tipos atuais de existência em um modelo ordenado de interpretação, visando sempre a um futuro melhor. Esse livro me mostrou, de uma vez por todas, que a geografia é mais do que uma coleção de nomes de morros, rios e capitais. É uma forma de libertação, na qual o espaço do homem não é só ciência e racionalidade, mas também filosofia, arte e esperança.