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Hans Magnus Enzensberger em São Paulo

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Por Danilo, 12/11/2009 20:36

Expoente da chamada “geração crítica”, engajada contra o autoritarismo na Alemanha desde a 2ª Guerra até os acontecimentos pós-68, o escritor, poeta e intelectual alemão Hans Magnus Enzensberger vem a São Paulo para três encontros abertos, a convite do Goethe-Institut São Paulo, Instituto Moreira Salles e Companhia das Letras. Neles, o intelectual dialogará com pensadores brasileiros, lançará seu mais recente livro Hammerstein ou A Obstinação e participará de noite de poesias. É a segunda vez que Enzensberger vem ao país, sendo sua obra conhecida no Brasil, tanto pela academia quanto pelo público. Entre suas obras traduzidas para o português estão A outra Europa (Companhia das Letras, 2006), O diabo dos números (Companhia das Letras, 2000) e Elementos para uma teoria dos meios de comunicação (Conrad, 2003).

Nascido em 1929, Enzensberger pertence a uma esquerda crítica, inovadora e livre. Desde sua estréia literária, foi visto como “agitador“ e “terror da classe média“. Seus ensaios e obras literárias, lapidares e contundentes, expressam suas reflexões sobre a política, a crítica social e a tradição literária. Foi membro do Grupo 47, importante marco da renovação literária alemã, e professor convidado de poesia na Universidade de Frankfurt. De 1965 a 1975, editou a Revista Kursbuch, que exerceu grande influência no movimento estudantil e em 1985 fundou a coleção Die Andere Bibliothek, que traduziu e publicou na Alemanha importantes escritores de todo o mundo, entre eles, Machado de Assis.

Recebeu, entre outros, os prêmios Georg Büchner (1963), Heinrich-Böll (1985), Heinrich-Heine (1998) e Premio d’Annunzio (2006) em reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Sua versatilidade e produtividade lhe asseguraram um lugar de destaque na literatura do pós-guerra e no debate cultural das últimas décadas, sendo reconhecido como uma das grandes figuras da cena literária mundial.

Programa

12 de junho, sexta
19h30
Goethe-Institut São Paulo

Encontro O Alfabeto da crise: cultura e política em questão
Com Hans Magnus Enzensberger e Fernando Gabeira

Enzensberger dialoga com o jornalista, escritor e deputado federal Fernando Gabeira a respeito da crise política e cultural. Enzensberger publicou recentemente um pequeno “alfabeto pessoal”, em que discorre com argúcia e bom humor sobre os principais termos e personagens do noticiário econômico, em busca do sentido corrente de expressões como “economia real”, “cassino” e “gerenciamento de riscos”, entre outros.

15 de junho, segunda
19h30
Goethe-Institut São Paulo

Lançamento do livro Hammerstein ou A Obstinação de Hans Magnus Enzensberger (Cia das Letras)
Debate com o autor, Jorge de Almeida e Márcio Seligmann-Silva

Enzensberger participa do lançamento de seu mais recente livro Hammerstein Ou A Obstinação, pela editora Companhia das Letras, com tradução de Samuel Titan Jr. O autor buscou fontes no mundo inteiro para retratar o destino de Kurt von Hammerstein, chefe do Exército alemão e oponente ao nazismo, de sua mulher e de seus sete filhos. Mesclando poesia e verdade, fatos e ficção em um único livro, Enzensberger retrata um dos mais tempestuosos episódios da história alemã, marcado pela traição e pela resistência. O lançamento é seguido de debate com Jorge de Almeida (USP) e Márcio Seligmann-Silva (Unicamp).

16 de junho, terça
18h
Anfiteatro de História (FFLCH/USP)
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Cidade Universitária

Uma noite de poesia com Hans Magnus Enzensberger e Antonio Cicero
Comentários de Viviana Bosi

Uma seleção de poesias do livro Rebus (Suhrkamp Insel, 2009) de Hans Magnus Enzensberger, será lida pelo autor em alemão e em português pelo poeta e filósfo Antonio Cicero, com comentários de Viviana Bosi (USP).

Ash Wednesday

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Por Danilo, 12/11/2009 20:26

T. S. Eliot é um dos meus poetas preferidos. Eliot nasceu em 1888, nos EUA, mas sempre fora um britânico de coração: em 1927, naturalizou-se súdito de Sua Majestade e viveu em Londres até sua morte, em 1965. Em 1948, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, “for his outstanding, pioneer contribution to present-day poetry“, um motivo tão amplo quanto justo.

Em seus textos poéticos e dramáticos, Eliot mostra a influência tanto dos escritores metafísicos ingleses do século XVII (sobretudo do grande John Donne) quanto dos simbolistas franceses do final do século XIX (Baudelaire, Laforgue); apesar das influências, no entanto, Eliot possui um estilo muito peculiar, marcado pela avant-garde em seus primeiros poemas, e pelo crescente conservadorismo social e religioso após os anos 1930.

Dentre seus poemas mais conhecidos, estão The Love Song of J. Alfred Prufrock, The Waste Land, The Hollow Men, Four Quartets e, não menos importante, o poema que trago aqui hoje, Ash Wednesday (”Quarta-feira de Cinzas”). Este foi o primeiro poema longo escrito por Eliot após sua conversão ao anglicanismo, em 1927, e traz uma série de referências à salvação da alma e ao clássico livro de Dante. Sem mais, segue abaixo um trecho do poema, cuja versão integral pode ser lida neste link: Poemhunter.com. Existe também uma rara gravação, do próprio Eliot declamando o poema, que pode ser ouvida aqui: 4shared.com. Espero que vocês gostem.

Ash Wednesday

Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man’s gift and that man’s scope
I no longer strive to strive towards such things
(Why should the agèd eagle stretch its wings?)
Why should I mourn
The vanished power of the usual reign?

Because I do not hope to know
The infirm glory of the positive hour
Because I do not think
Because I know I shall not know
The one veritable transitory power
Because I cannot drink
There, where trees flower, and springs flow, for there is nothing again

Because I know that time is always time
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place
I rejoice that things are as they are and
I renounce the blessèd face
And renounce the voice
Because I cannot hope to turn again
Consequently I rejoice, having to construct something
Upon which to rejoice

And pray to God to have mercy upon us
And pray that I may forget
These matters that with myself I too much discuss
Too much explain
Because I do not hope to turn again
Let these words answer
For what is done, not to be done again
May the judgement not be too heavy upon us

Because these wings are no longer wings to fly
But merely vans to beat the air
The air which is now thoroughly small and dry
Smaller and dryer than the will
Teach us to care and not to care Teach us to sit still.

Pray for us sinners now and at the hour of our death
Pray for us now and at the hour of our death.

Conversando com o Professor Pasquale

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Por Danilo, 12/11/2009 20:20

Ontem rolou um bate-papo com o Professor Pasquale a respeito das relações entre a internet, os blogs e a língua portuguesa. Como eu estava um pouco desocupado na Campus Party, acabei no meio da conversa também. Clique na foto abaixo para ver o vídeo, na página da IPTvCultura.

Prof. Pasquale

José Mindlin começa a esvaziar biblioteca

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Por Danilo, 12/11/2009 20:08

Fonte: Folha Online. José Mindlin é uma pessoa sem par na intelectualidade nacional. Além de ter sido, por décadas, o diretor de uma grande empresa brasileira (a Metal Leve), Mindlin tornou-se o maior bibliófilo do País, com um acervo extraordinário de edições raras. São 38 mil títulos, quase todos dedicados ao Brasil ou escritos por autores nacionais, muitos deles de valor inestimável: há o “Grande Sertão: Veredas” datilografado e corrigido pelo próprio Guimarães Rosa; o primeiro exemplar de “Vidas Secas”, ainda antes de ter sido enviado às impressoras, cujo título era “O Mundo Coberto de Penas”, entre muitos outros livros raros.

À parte isso, Mindlin pretende doar todo o seu acervo para a Universidade de São Paulo, em um gesto de grande generosidade. A faculdade, contudo, precisa cumprir certos requisitos, como vocês lerão abaixo. Espero que dê tudo certo, e possamos ter acesso à “Brasiliana” de José Mindlin.

Esse post é dedicado para a Giovana, e ela sabe bem o porquê. :)

José Mindlin começa a esvaziar biblioteca
Sylvia Colombo

“A gente passa, os livros ficam”, as palavras do bibliófilo José Mindlin, 94, ecoam num dos compartimentos da imensa biblioteca que é sua casa, no Campo Belo, em São Paulo. Biblioteca esta que, até o final de 2009, deve ter suas estantes parcialmente esvaziadas. Nesta data, está previsto o início do transporte de cerca de 20 mil títulos, equivalentes a quase 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, para o edifício da Brasiliana USP, no campus da universidade, em São Paulo.

A generosa doação de Mindlin, que incluirá obras sobre o Brasil que o ex-empresário vem colecionando desde os 13 anos de idade, porém, ainda depende de um compromisso firmado com a instituição. Se a USP não tiver concluído, até o fim do ano que vem, a construção de um edifício de 20 mil m2 em condições de armazenar a coleção, a doação será revogada.

Por conta disso, a universidade corre contra o relógio para viabilizar o projeto. Até agora, já foram reunidos cerca de R$ 26 milhões, em meio a doações diretas ou via leis de incentivo, além de um aporte da própria USP. Participam empresas como a Petrobras, o grupo Votorantim, a Telefônica, a CBMM (Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia, empresa do grupo Moreira Salles). De acordo com o coordenador do projeto, o professor István Jancksó, faltam ainda cerca de R$ 20 milhões a serem arrecadados para garantir o resultado da empreitada.

O prédio que abrigará a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) já está sendo levantado entre os edifícios da Reitoria e os da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. O projeto foi desenvolvido pelos escritórios Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com assessoria da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). Como referências foram utilizadas a New York Public Library e a Biblioteca Nacional de Paris.

O edifício também servirá como nova sede do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), criado em 1962 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, e que contém entre seus mais de 140 mil títulos, obras de Mário de Andrade e Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, entre outros.

Entre as raridades de Mindlin que irão para a USP estão desde o primeiro livro em que o Brasil foi mencionado numa coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, que noticia a viagem de Cabral, obras de história, periódicos, trabalhos científicos e didáticos, álbuns ilustrados, gravuras e edições valiosas de grandes obras da literatura nacional, muitas primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores.

Uma vez pronto o prédio e transportados os livros –o que está previsto para acontecer em meados de 2010– o acesso a essas duas coleções será aberto e irrestrito. Mais sobre o que já foi feito e que vem por aí pode ser conferido no site www.brasiliana.usp.br.

Paralelamente, está em curso um processo de digitalização de obras raras, a Brasiliana Digital. Um piloto desta idéia já está no ar. Trata-se do dicionário “Vocabulario Portuguez & Latino”, do padre Raphael Bluteau, do século 18, que pode ser consultado por meio do site do IEB (www.ieb.usp.br).

Visita do ministro

Em visita à casa do bibliófilo, na última sexta-feira, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que o personagem e sua história mereceriam um documentário. “O depoimento de quem lê é muito importante para suprir a carência de pais leitores no país”, disse.

Com relação ao tema, Ferreira também disse que sua gestão, iniciada oficialmente no fim de julho, pretende zerar o número de municípios brasileiros sem biblioteca (cerca de 600) e propor a recriação de um órgão apenas para cuidar do tema, como o extinto Instituto Nacional do Livro. O ministro diz que quer discutir o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no próximo encontro entre ambos.

Vargas Llosa no “Heart of Darkness”

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Por Danilo, 12/11/2009 20:07

Fonte: El País.

Vargas Llosa en el corazón de las tinieblas

‘El País Semanal’ abre este domingo con Congo una serie de viajes de autor a los conflictos olvidados del mundo

“El problema número uno del Congo son las violaciones. Matan a más mujeres que el cólera, la fiebre amarilla y la malaria. Cada bando, facción, grupo rebelde, incluido el Ejército, donde encuentra una mujer procedente del enemigo, la viola. Mejor dicho, la violan. Dos, cinco, diez, los que sean. Aquí el sexo no tiene nada que ver con el placer, sólo con el odio. Es una manera de humillar y desmoralizar al adversario”. Así, con el testimonio crudo de un médico del hospital de Minova, arranca el reportaje Viaje al corazón de las tinieblas, en el que Mario Vargas Llosa relata su reciente visita a Congo y que El País Semanal publicará el próximo domingo.

Con el autor peruano, el suplemento de EL PAÍS inaugura la serie Testigo del horror, en la que varios escritores darán cuenta de la violencia que sacude el mundo.

En la narración de su experiencia en el país africano, el autor de La ciudad y los perros realiza un fresco descarnado de la realidad de un país en el que las violaciones compiten con las enfermedades agravadas por la dramática escasez de agua potable. A todo ello hay que sumar la corrupción generalizada, la indiferencia del resto del mundo y la apatía de miles de desplazados que llevan toda la vida siéndolo: “Muchísimos de ellos están ya más muertos que vivos y, lo peor, lo saben”.

Acompañado por miembros de Médicos Sin Fronteras, Vargas Llosa pasa de los hospitales a los campos de refugiados, como el de Hewa Bora, cuya paradójica traducción es “Aire Bello”. Allí se encuentra con los pigmeos, que descienden a diario el último peldaño de la miseria: “En una sociedad sin ley”, escribe el novelista, “corroída por la violencia, las luchas cainitas, las invasiones, la corrupción y las matanzas, los pigmeos son las víctimas de las víctimas, los que más sufren. Basta echarles una mirada para saberlo”.

Paradójicamente, Congo es un lugar rico en zinc, cobre, plata, oro y coltán. Obtenido, eso sí, de minas explotadas por mano de obra esclava. “¿Qué le hace falta para aprovechar sus incontables recursos?”, se pregunta el escritor. Él mismo responde: “Paz, orden, legalidad, instituciones, libertad”. Cosas por ahora “muy difíciles de alcanzar” en un país al que, para colmo de males, huyeron los milicianos hutus que perpetraron el genocidio de tutsis en Ruanda en 1994. Un país con el mayor índice de accidentes aéreos del mundo. Un país en el que se encuentra desplegada la mayor operación emprendida jamás por la ONU: 17.000 soldados y 1.500 civiles impotentes ante una realidad desbordante.

Colonia belga durante casi siglo y medio, Gongo no encontró la estabilidad con la independencia conseguida en 1960. Expolio aparte, Bélgica dejó como herencia la lengua francesa y la religión católica, pero una pregunta surge a cada paso, en cada estación del viaje. Es la que formula un poeta al que Vargas Llosa conoce en Lwemba, un distrito popular de Kinshasa. “¿Y qué hemos hecho nosotros, los congoleños, con nuestro país?”.

Mundo de um imenso escritor

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Por Danilo, 12/11/2009 20:06

Fonte: O Estado de São Paulo.

Mundo de um imenso escritor

Antologia Pessoal, de Borges, traz textos pelos quais ele gostaria de ser julgado

Leda Tenório da Motta

Num de seus inúmeros golpes de autoironia, Borges declarou ao mundo, no auge de sua fama planetária, que só estava sendo confundido com um grande escritor porque teve a sorte de não nascer no século 19, quando a concorrência teria sido infinitamente maior. É com esse mesmo espírito que ele condescende em resumir-se em sua Antologia Pessoal, reunião de textos em prosa e verso por ele mesmo indicados, no prólogo do livro, como sendo aqueles pelos quais gostaria de ser “julgado”, palavra que vibra aí, menos como um sinônimo de “apreciado”, ou “interpretado”, ou o que quer que tenha a ver com uma crítica profana, e mais como uma ameaça de sentença do tribunal da eternidade, a que ele prefere se referir.

Quem leu a melhor entrevista jamais feita com Borges – aquela conduzida pelo radialista argentino Antonio Carrizo, que foi ao ar diariamente, em emissões de três horas e meia, pela Rádio Rivadavia de Buenos Aires, durante os meses de julho e agosto de 1979, e que está hoje recolhida num volume imperdível – sabe o quanto o escritor, que se passa em revista, nessa oportunidade, ao completar 80 anos, sabe espiar-se por cima dos próprios ombros, o quanto ele se vê falhar, se flagra muito aquém do dom da expressão, ou o que é pior, muito além.

Pôr-se na linha da tradição erudita, para vivê-la como insuperável, de tão admirável, é o que ele já fazia, assim, mais ou menos 20 anos antes, em 1961, na abertura dessa espécie de Borges por Borges que, pelas mãos de um pequeno pool de tradutores , todos experimentados, seja em tradução, seja na obra borgesiana – Josely Vianna Baptista, Heloisa Jahn e Davi Arrigucci Jr. -, só nos chega agora.

Nada aí é novidade, já tínhamos lido tudo, aliás, por vezes, nas mesmas traduções, como no caso das de Josely, essa finíssima poeta, que integrou a premiada equipe da edição Globo das Obras Completas de Borges, lançada nos anos de 1990, no modelo da Emecé. Mas juntadas assim, pelo próprio autor, que, ainda por cima, pede a nossa indulgência, essas peças recortadas de quatro álbuns, de fato, dos mais antológicos, mesmo que muita coisa tenha acontecido depois – Ficções, O Aleph, O Fazedor, Outras Inquisições, O Outro, O Mesmo – viram uma caixa de maravilhas.

Há mais a tirar de tal cofre. Pois se admitirmos, ainda, como é preciso fazer, que o escritor é um dos mais imensos do século 20, nenhuma dessas suas declarações, que o mostram escapando de ser enclausurado em alguma definição da literatura, nos impede de pensar que uma antologia de Borges feita por ele mesmo só pode conter algumas das melhores narrativas curtas e alguns dos melhores poemas do século, senão os mais perfeitos contos e versos do século. Obsessivo dos centros vertiginosos, o que ele faz aí é dar-nos indicações do caminho até o seu próprio centro. E o melhor é que, como este florilégio se organiza sem nenhuma preocupação com a cronologia, e como Borges é, no mínimo, duplo, temos aí todos os Borges essenciais que ao mundo se revelava – desde a França, onde ele é descoberto – nesses anos 60 de que data a Antologia Pessoal.

Estamos falando, de um lado, do morador da biblioteca, do sujeito logosférico e labiríntico, do idealista absoluto, que sonda o caráter fabuloso da realidade, a possível ficção da nossa própria existência. Do Borges, enfim, que está na origem de todos aqueles textos mais para metafísicos em que sua literatura se torna comentário crítico, cruzamento de ficção e ensaio filosófico, a exemplo dos que estão recolhidos em Outras Inquisições. Esse é o Borges que sai da influência do também incorpóreo Macedônio Fernandez, um de seus mais perturbadores mestres, que ele conhece frequentando, nos anos 20, na volta da Suíça, as tertúlias do Café La Perla, na Plaza Onze, onde o “Sócrates argentino”, como o chamam alguns, oficiava todos os sábados. As relações de mão dupla que se estabelecem entre ambos são tais que um dirá que usurpou a obra do outro, enquanto os dois fazem prosperar suas histórias sobre autores inexistentes. É Macedônio quem apresenta a Borges Berkeley e Schopenhauer, permitindo-lhe pensar que o mundo é representação ou sonho, e, sendo um satirista, o desvia para o humor, demovendo-o para sempre da tentação de se levar a sério.

Estamos falando, de outro lado, do pintor da vida portenha, do retratista dos arrabaldes e dos pampas, do observador dos gaúchos e dos “compadritos”, que são camponeses deslocados na cidade, onde se envolvem em cenas de valentia, a faca sendo a arma preferida deste outro Borges. Entra aqui o Borges que deplora estar envolvido com livros, metafísicas e literatura, e que teria preferido à carreira das letras a dos guerreiros, que foi a de todos os seus, todos heróis nacionais, até que a cegueira se abatesse sobre o seu pai, e lhe fosse transmitida, obrigando-o a nada mais ser que um “hacedor”, tradução do inglês “maker”, que é como os ingleses antigos chamavam os poetas. Este é o lado Evaristo Carriego, outro vulto da literatura local, a que está dedicado o primeiro livro do primeiro tomo das obras completas borgesianas, Fervor de Buenos Aires. Se nada deste volume entra na antologia, ele faz-se representar aí por tudo aquilo que, em Borges, é vida pulsante, realidade apreensível fora dos círculos do livro e das volutas das enciclopédias.

Não que esses dois lados não possam ainda se misturar e se fundir, como no estonteante conto O Sul, este, sim, antologizado, confirmando-se, por antecipação, o que Borges ainda haveria de confidência a Carrizo: que era, de todos, o seu melhor trabalho.

Nessa pequena obra-prima, a trama em abismo, com todos os tempos e os espaços embaralhados, e a personagem central que pode estar dormindo ou alucinando o que vamos lendo, é um puzzle lógico. Mas é também uma história singelamente real, girando em torno de um buenairense que – como, um dia, o próprio Borges – feriu-se na cabeça, ao subir uma escada e bater em algum objeto, foi parar no hospital, delirou muitos dias sob o efeito da anestesia, depois melhorou, deixou o leito, tomou um trem para o interior, parou num café e acabou tendo que se enfrentar com uns peões encontrados num café, que se puseram a provocá-lo. O conto acaba bem na hora em que o herói puxa o punhal, que talvez não saiba manejar.

Não se trata tanto de reconhecer nessas diferentes temáticas e faturas o escritor realista e o fantástico, mas de ver como um imenso escritor é aquele que tem um estilo e um mundo. É o que esta Antologia Pessoal, que não é a única de Borges, mais revela.

Leda Tenório da Motta, professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, tradutora e crítica literária, é autora, entre outros, de Proust – A Violência Sutil do Riso

Los 10 mejores libros de 2008

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Por Danilo, 12/11/2009 20:02

O jornal espanhol El País publicou sua lista de melhores livros de 2008. Em primeiro lugar, Chesil Beach, a última novela do famoso Ian McEwan.

Para a lista completa, clique aqui: El País – El Placer de los paraísos perdidos.

Borges y Yo

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Por Danilo, 12/11/2009 18:52

Jorge Luis Borges dispensa apresentações. Não só foi dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos, mas também um homem extremamente sensível, distinto e honesto (qualidades talvez mais raras do que aptidões artísticas, sobretudo nessas terras tropicais). Como de costume, me deparei com algumas páginas do argentino, e lembrei-me de seu famoso poema em prosa “Borges y Yo“. Segue aqui o texto, lido pelo próprio autor. Clique abaixo para ouví-lo.

“Borges y Yo”

Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas. Yo camino por Buenos Aires y me demoro, acaso ya mecánimente, para mirar el arco de un zaguán y la puerta cancel; de Borges tengo noticias por el correo y veo su nombre en una terna de profesores o en un diccionario biográfico. Me gustan los relojes de arena, los mapas, las etimologías, la tipografía del siglo XVIII, el sabor del café y la prosa de Stevenson; el otro comparte esas preferencias, pero de un modo vanidoso que las convierte en atributos de un actor. Sería exagerado afirmar que nuestra relacíon es hostil; yo vivo, yo me dejo vivir, para que Borges pueda tramar su literatura y esa literatura me justifica. Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas páginas válidas, pero esas páginas no me pueden salvar, quizá porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradición. Por lo demás, yo estoy destinado a perdeme, definitivamente, y sólo algún instante de mí podrá sobrevivir en el otro. Poco a poco voy cediéndole todo, aunque me consta su perversa costumbre de falsear y magnificar. Spinoza entendió que todas las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere ser piedra y el tigre un tigre. Yo he de quedar en Borges, no en mí (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologías del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.

No sé cuál de los dos escribe esta página.

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